Crônicas urbanas: a vida contada em uma corrida de táxi

Após ouvir emocionante história em Buenos Aires, pensei qual seria a distância necessária para eu contar a minha vida

Entrei no carro e mandei um “buenas noches” arranhado e anasalado, na esperança de passar por um portenho e, com isso, afagar meu ego. O truque tinha dado certo em outras ocasiões, mas, desta vez, mal eu tinha acabado o “noches” e o taxista me disse: fale em português que será melhor. Então, recolhi-me à minha insignificância e percebi a fragilidade do ser humano em certas situações. Não protestei nem reagi e, ato contínuo, retomei, humilde, a língua pátria: vamos para Palermo!

O taxista me contou que morou por 15 anos no Brasil. Ainda jovem e aventureiro, músico amador, veio para cá e se apaixonou pelo país e por uma brasileira, com quem se casou e teve um casal de filhos. Largou a linda —mas difícil — vida de músico para ajudar a mulher num buffet infantil que chegou a ter duas filiais e três Kombis. Moravam em São Paulo, a 300 metros de onde moro, acredite se quiser. A crise econômica dos anos 1980, somada à piora da qualidade de vida em São Paulo, despertou na esposa o desejo de criar as crianças em uma cidade menor, na qual pudessem melhor desfrutar daquele momento único: filhos em fase de crescimento.

25 de Mayo, sua terra natal na Argentina, foi para onde se mudaram, mesmo contra seu desejo, já que era o único na família que queria permanecer no Brasil.

Nessa altura da conversa, comecei a calcular se o tempo que ainda faltava para chegar seria suficiente para que ele terminasse sua história. Juro que cogitei inventar uma desculpa qualquer para alongar a viagem, tamanho era o meu desejo de que a sua saga de vida pudesse ser concluída. Havíamos saído do centro na direção de Palermo e, naquela noite, para meu azar, não havia trânsito em Buenos Aires.

Pablo deve ter cerca de 75 anos, falava pausadamente e, talvez por ter involuntariamente incorporado às técnicas do canto, acelerava alguns trechos, sussurrava ou falava mais alto em outros, como se estivesse interpretando um tango, dando outra dimensão ao relato. A cada pausa eu fazia a pergunta que permitia que a vida e a história fluíssem. Foi numa dessas que tive que desviar o olhar para a paisagem para evitar que ele percebesse minha emoção: dizia que quando as crianças terminavam a adolescência e a vida fluía em harmonia, a esposa detectou uma grave doença, que em poucos anos a levou. Contou de uma maneira tão simples, tão sóbria e tão elevada o que deve ter sido o momento mais trágico de sua vida que, naquele segundo, elevei-o de simples motorista de táxi de uma efêmera viagem a herói.

Não tive coragem de perguntar nada que alongasse essa parte da conversa. Sua entonação, seus gestos e seu olhar já diziam tudo.

A filha morava em Buenos Aires e o filho, em 25 de Mayo. Encontrava-os na frequência que a vida permitia e, sem deixar transparecer qualquer tipo de ressentimento, parecia entender a rotina ocupada dos filhos. Pensei em solidão depois de uma vida tão rica, mas ele não deu brecha para que eu confirmasse o que somente intuía. Chegávamos a Palermo e eu não tive tempo de perguntar tantas outras coisas que gostaria de saber. Paguei a corrida e me despedi. Ao sair do carro, impactado, tive que ficar andando por algum tempo até que as coisas se assentassem em mim.

Eu, que muitas vezes me pergunto, atônito, como uma vida pode ser resumida em três linhas nos obituários dos jornais, acabava de saber de uma emocionante história de vida que coube numa corrida de táxi de uma noite sem trânsito em Buenos Aires.

Fiquei pensando então qual será a distância necessária para eu contar a minha vida?

Do Anhangabaú à Praça da Sé?

Do Pelourinho ao Farol da Barra?

De Copacabana ao Flamengo?

Ou de Rio Grande ao Cassino?

De táxi, de bicicleta ou a pé?

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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