Populações insatisfeitas, cidades em transe, governos atônitos: oportunidade de mudança

Enquadrar a gestão pública à lógica empresarial é ter visão limitada

O que une Equador, Líbano, Iraque e Chile é a insatisfação com a incapacidade de os políticos solucionarem as necessidades básicas da maioria da população. Na sua maioria socialmente insensíveis, tecnocratas do ajuste econômico, agem como se governar sociedades fosse simplesmente obtenção de resultados financeiros, como se empresas fossem.

Enquadrar a gestão pública à lógica empresarial é de um reducionismo atroz, só concebível em mentes treinadas para competir e estimular o sucesso individual, uma visão limitada das capacidades e desafios humanos.

As empresas têm limites muito claros e fundamentalmente três objetivos: obediência, disciplina e resultado. Lidam com processos produtivos sobre os quais têm domínio e previsibilidade. Desenvolvem, dentro de seus limites, um importante papel na sociedade.

Já os governos lidam com problemas complexos, de difícil previsibilidade. Tratam de relações, necessidades e expectativas de seres humanos: saúde, educação, cuidado com crianças e idosos, geração de oportunidades, entre tantos outros.

Na maioria dos países, os governos têm atuado para defender os interesses dos grandes grupos econômicos, numa clara inversão de valores, e não conseguem resolver problemas básicos da maioria da população. Com isso, o grau de insatisfação com os políticos é enorme.

Pesquisas apontam que em termos de confiança nas instituições os políticos ocupam os últimos lugares. A última pesquisa Barômetro das Américas (Lapop) mostra que o Congresso Nacional e os partidos políticos só têm a confiança de 31% e 13% da população, respectivamente. É um risco para a democracia, que passa a ser questionada como se fosse responsável pela ineficiência dos governos. As recentes manifestações mostram isso.

As cidades são o palco dos acontecimentos. É nelas que nos reunimos para os shows, mas também para os protestos, faces de uma mesma moeda.

Não foi só o aumento de 30 pesos no metrô de Santiago, ou a taxa de 20 centavos de libra libanesa para uso de chamadas de voz no WhatsApp em Beirute, nem só o aumento da gasolina no Equador. Essas foram somente a gota d’água que fizeram transbordar em forma de desabafo insatisfações difusas e acumuladas em diferentes países nestes últimos dias. A mesma gota que nos tira do sério tantas vezes em nossas vidas privadas foi compartilhada, desta vez, por milhares de pessoas pelo mundo.

Com uma vida sofrida, sem ter reconhecimento nem no setor público nem no privado, com serviços de baixa qualidade, com abusos e insensibilidade por parte dos governos, o limite da paciência das pessoas é atingido e o ponto de não retorno se consolida.

Não dá mais para pressionar os mais vulneráveis, como a política econômica vem fazendo em diversos países, inclusive Brasil. Eles já carregam mágoa suficiente pela falta de trabalho digno, de creche para os filhos, de atendimento na saúde, de transporte decente, de serviços públicos de qualidade, de salário que simplesmente lhes confira dignidade. Neste ambiente de equilíbrio instável, um pequeno aumento na passagem do metrô ou na gasolina funciona como um rastro de pólvora para incendiar multidões.

Essas manifestações deveriam servir de alerta para os governos em geral e, por que não, para o mundo dos negócios. A mensagem é que, se os governos continuarem aumentando produtos e serviços básicos, reduzindo aposentadorias dos mais vulneráveis, arrochando salários já precários e preservando o privilégio de poucos, o risco de instabilidade social é grande. E com instabilidade social a economia não funciona.

É riquíssimo o exercício da leitura das crises nesses países e como servem de aprendizado para a grande maioria das nações. Temos no Brasil problemas similares: pobreza, desigualdade, insatisfação com governos. Ignorá-los poderá custar caro para todos nós e não será na base da força que se resolverá insatisfações reprimidas. Freud sabia disso, mas, antes dele, as mães sempre souberam como enfrentá-las: com cuidado, atenção e ações reparadoras.

Não há alternativa: temos de reduzir as desigualdades de nosso país, as desigualdades nas cidades. Sabemos quem são os mais vulneráveis e onde estão os recursos. É possível enfrentar o problema, mas falta coragem para a grande maioria dos políticos.

Este deveria ser o filtro de qualquer investimento e política pública: vai reduzir as desigualdades?

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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