A água está desaparecendo

O problema da escassez de água em São Paulo não é conjuntural. A falta de chuvas na região Sudeste é estrutural, e o problema pode se agravar muito em curto prazo. O encontro “Crise da Água: Desafios e Soluções”, realizado pela Rede Nossa São Paulo – RNSP no SESC Consolação, deixou todos os participantes muito preocupados: só um “esforço de guerra” pode poupar a população das regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas do infortúnio do desabastecimento de água.

Desertificação

A palestra de abertura do evento, feita pelo cientista Antonio Donato Nobre, do Instituto de Pesquisas Espaciais, catalisou as atenções, indo direto ao ponto: a sociedade está destruindo a Amazônia e, com isso, desertificando a região Sudeste. Através de um gráfico, Donato mostrou que “desde 1990 as precipitações estão diminuindo e as secas estão aumentando”. E isso tem uma explicação que envolve o grande ciclo atmosférico no planeta Terra.

Bomba de umidade

Segundo Donato, na região da linha do Equador estão as florestas, e na faixa dos trópicos estão os desertos. São Paulo está exatamente em cima do Trópico de Capricórnio, porém não temos deserto nessa região exatamente devido ao fornecimento gigantesco de água da região da Amazônia para o Sudeste, que vem pelos “rios aéreos”. A Amazônia seria a grande “bomba biótica de umidade”, pulsando e trazendo a água para o Sudeste por vias áreas, pelas chuvas. Como estamos destruindo a Amazônia, estamos retirando a força desse “coração” para bombear água para cá.

Guerra

Sem a grande floresta amazônica, o destino climático de São Paulo será “um pesadelo”, segundo Donato. “A complacência é o nosso maior problema. Aqui foi verde por 50 milhões de anos, e estamos destruindo esse verde em 50 anos”, considerou Donato. Para ele, dada a dramaticidade da situação, que a crise do Sistema Cantareira demonstra, só um “esforço de guerra” para alertar a todos do grande risco ambiental, e para conseguir as medidas de alteração desse quadro, poderão nos salvar do pior.

Projetos

Ambientalistas e técnicos deram sua contribuição ao debate. Marússia Whately, do Instituto Socioambiental, lembrou que o maior conflito por água atualmente está nas regiões metropolitanas do estado de São Paulo. O uso da água hoje é prioritariamente para irrigação, e que não se sabe bem como esse setor trabalha, e que o Sistema Cantareira praticamente já não tem capacidade de reposição, pela supressão vegetal. Maurício Broinizi, coordenador da RNSP, relacionou uma série de projetos já em andamento no mundo, que consideram a importância da conservação de áreas verdes para a produção de água e para a sustentabilidade do planeta.

Minudências

@ Em 15/05 começou o bombeamento do “volume morto” dos reservatórios do Sistema Cantareira, ou seja, está sendo retirada a água situada abaixo dos dutos normais dos reservatórios.
@ Nessa data de 15/05 restavam apenas 8,5% da capacidade útil no Sistema Cantareira. Com o acréscimo da reserva, ou “volume morto”, a disponibilidade total do Sistema Cantareira passou a 26,7%. Na data de 09/06 o site da Sabesp anunciava que a disponibilidade é de 23,9%.
@ Outros sistemas de abastecimento, como o Guarapiranga-Billings e o Alto Tietê, já estão fornecendo água para ajudar a abastecer os consumidores do sistema Cantareira.
@ Todos os seis sistemas da Sabesp que abastecem a região da Grande São Paulo estão com índices pluviométricos muito abaixo da média para o mês de Junho.
@ Marco Antonio dos Santos, representante da Sanasa, que cuida do abastecimento da região de Campinas, relatou o conflito que existe entre duas das maiores regiões metropolitanas do Brasil – São Paulo e Campinas, pela água do sistema Cantareira.
@ Clique AQUI para assistir a uma palestra de Antonio Donato Nobre sobre o tema. 
@ A Rede Nossa São Paulo lançou um manifesto por maior transparência pelo governo estadual na questão da crise do sistema Cantareira. Clique AQUI para ler o manifesto.

Matéria originalmente publciada no portal Zona Norte na Linha

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