“Cidade inteira sofre com tráfico” – Jornal da Tarde

 

De todos os distritos de SP, só não houve prisões na Vila Mariana, Engº Marsilac e Alto de Pinheiros

Eduardo Nunomura

Nove em cada dez traficantes em São Paulo são presos com menos de 1 quilo de maconha, 500 gramas de cocaína ou 50 gramas de crack. Uma única apreensão de crack no Jabaquara supera a soma das mais de 200 em Santa Cecília, onde fica a cracolândia. O Departamento de Narcóticos, órgão especializado da Polícia Civil, retirou só 4 quilos de maconha das ruas da capital durante seis meses. E a maior apreensão da droga, de 8,5 toneladas, ocorreu por pura sorte. O caminhoneiro que transportava a mercadoria perdeu o freio e bateu em outros carros perto de Paraisópolis. A PM, chamada para evitar um linchamento, trombou com a carga.

A realidade descrita acima emerge da análise de 9.252 ocorrências que resultaram na prisão de traficantes na capital paulista entre 2007 e o primeiro semestre deste ano. Levantamento do Grupo de Atuação Especial de Repressão e Prevenção aos Crimes Previstos na Lei Antitóxicos (Gaerpa), do Ministério Público Estadual, revela o mapa do tráfico paulistano.

São Paulo vem perdendo a guerra contra as drogas. Os criminosos estão espalhados por quase todos os seus 96 distritos. Só Alto de Pinheiros e Vila Mariana e o pobre e despovoado Engenheiro Marsilac ficaram de fora. Neles, as polícias não prenderam nenhum criminoso, o que não significa que estejam livres do problema.

A soma das apreensões realizadas por todas as forças policiais de 2007 a junho deste ano equivale a 24,7 toneladas de maconha, 4,7 toneladas de cocaína e 282 quilos de crack. Esse volume representa entre 5% e 10% do consumo.

O relatório do Gaerpa é feito com dados de inquéritos policiais que viram processos no Fórum da Barra Funda, no qual ao menos um adulto foi preso. É um banco de dados continuamente atualizado por júris. Não relaciona as ocorrências envolvendo apenas menores de 18 anos ou quando não houve a prisão em flagrante. Mas é amplo por incluir as Polícias Civil, Militar e Federal, Guardas Civis, agentes de presídios e seguranças de trens e metrô. É um dos retratos possíveis para mapear o tráfico. A Secretaria de Segurança não comentou os dados.

Ao se prender traficantes, criam-se mais problemas. Os presídios ficam lotados, pouca droga das ruas é retirada e, em alguns casos, a Justiça abarrotada acaba aplicando a lei em favor dos criminosos. Como há um exército de pessoas dispostas a traficar, muitos são réus primários. Se condenados, cumprem pena de menos de 2 anos, na prática reduzida a 10 meses, segundo a lei, e muitas vezes são inocentados.

O promotor Marcelo Luiz Barone, do Gaerpa, critica a luta antidrogas. “A polícia não sabe onde atacar, atira para tudo quanto é lado e de vez em quando acerta”, diz, acrescentando que ela perde tempo com pequenos traficantes e o órgão repressor, o Denarc, não funciona como deveria.

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