Encontros e desencontros em tempos de pandemia

O sétimo dia de luto pela morte da tia Tereza coincidiu com as manifestações do último sábado

A notícia chegou no domingo bem cedo na voz de uma prima: a nossa querida tia Tereza tinha falecido. Ato contínuo passou por mim o filme dela, editado só com seus melhores momentos, um curta generoso, mas injusto com a riqueza de toda uma vida. Nas cenas ela tocava piano, cantava, jogava canastra, encontrava força e motivação diante de grandes adversidades e se fazia presente nos momentos mais sensíveis, com seu inigualável faro afetivo.

Encerrada a sessão imaginária, a volta à realidade: comprar passagem, arrumar a mala e pegar o primeiro avião para tentar chegar a tempo da última despedida. Ao desembarcar em Porto Alegre, decidi, por uma inexplicada intuição, não chamar um Uber e pegar um táxi, supostamente mais seguro para quem desconhece as artimanhas da cidade e carrega algumas bugigangas eletrônicas.

Até então, em toda minha vida, só tinha tido experiências com táxis acessíveis em Porto Alegre, justamente por causa dela, minha tia Tereza, cadeirante nessa fase da vida. Táxis acessíveis são raros na frota da cidade e eu penava para achá-los naquelas ocasiões. Contratava-os para buscá-la no asilo e, no trajeto que nos levava ao restaurante “surpresa” onde comemorávamos seu aniversário daquele ano, íamos conversando, eu na frente e ela atrás, sentada em sua cadeira de rodas amarrada por um emaranhado de cabos que garantiam uma dupla imobilidade: a cadeira, a dela; os cabos, a da cadeira.

No desembarque do aeroporto daquele triste dia ensolarado, a fila de táxis livres era enorme com dezenas de carros sedentos por um cliente em tempos de pandemia e crise econômica. Olhavam para os passageiros com malas como quem olha para um prato de comida. Percebi que era grande porque a percorri no sentido inverso, do fim para o começo, até chegar ao primeiro felizardo da fila, com a porta e o bagageiro abertos, num gesto de acolhimento. “Quer um táxi?”, gritou o gerente de logística, ao ver que me aproximava. Entrei e levei ainda alguns segundos para perceber que o táxi em que eu estava, o primeiro daquela longa fila, era justamente um dos raros táxis acessíveis da cidade. Nunca tinha me ocorrido isso antes. Passei então a tentar fazer as conexões e perceber os sinais que teimam em desafiar a minha razão iluminista.

As portas abertas como se fossem braços a me receber para o último trajeto que faríamos juntos, naquele dia tão especial. Surpreso, olhei para trás tentando encontrá-la, mas não a vi. Pelo menos fisicamente, porque toda a experiência me fez sentir, de alguma maneira, sua presença. Percebi então que, mesmo sem tê-la visto, eu já a tinha encontrado. E resisti para não pedir ao motorista do táxi acessível retornar ao aeroporto, ainda à vista, e pegar o primeiro avião de volta, pois o suposto desencontro daquela manhã tornou-se o encontro que acabava de se consumar.

No trajeto para o velório percebi que Tereza não faleceu de Covid-19, mas devido à pandemia. O longo período de isolamento a deprimiu. A combinação do indesculpável atraso na compra de vacinas, da falta de medidas de isolamento e da aposta no tratamento precoce deixou o rastro de óbitos evitáveis, inúmeras sequelas e mortes indiretas. O caminho de irresponsabilidades do governo federal, cada vez mais evidente, gerou vítimas de toda ordem, que ainda recolheremos por muito tempo: tia Tereza foi mais uma delas.

O luto do sétimo dia coincidiu com as manifestações de protesto do último sábado. O encontro com a realidade veio por meio do desfile de mascarados enlutados no velório coletivo de 500 mil brasileiros que, lamentavelmente, alcançamos naquele dia, honrando a triste saga de país dos recordes negativos que assumimos nos últimos anos. Avós desesperadas, mães inconformadas e jovens com camisetas anunciando que haviam perdido seus pais devido à falta de vacina caminhavam em silêncio. Mas, aos poucos, o cortejo fúnebre foi crescendo e se transformando em festa cívica.

A maioria da população ali representada passava, a seu modo, mensagens às instituições anunciando a chegada ao limite do sofrimento e que mudanças estão mais próximas do que se pode imaginar.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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