Qual a relação entre os problemas da sociedade e a ausência de mulheres no poder?

Pobreza, violência e desigualdade social decorrem também da falta de uma outra perspectiva nas tomadas de decisão da sociedade

Um dos mais extraordinários fatos dos últimos cem anos foi o espaço ocupado pelas mulheres na sociedade. Ainda estamos longe da equidade de gênero, mas houve avanços significativos e o tema está na agenda de governos, empresas e sociedade civil.

Ainda assim, ainda há muito a avançar.

A história da evolução humana, contada pelos homens, não registra, nem faz justiça à participação e à importância das mulheres. Basta observar um livro qualquer de história para constatar essa desproporção: as mulheres são invisíveis nos relatos oficiais. Tamanho absurdo nem Freud explica.

Nos espaços de poder como a política, as mulheres são minoria: embora sejam 52% da população brasileira, ocupam somente 15% das cadeiras do Congresso Nacional. No executivo, somente 1 dos 27 estados da Federação é governado por mulher. Segundo o Instituto Alziras, apenas 12% dos 5.570 municípios são comandados por prefeitas na atual gestão. No judiciário, as mulheres são 2 dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) e 6 dos 33 ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O gênero feminino, portanto, está sub-representado em todas as esferas da federação.

Nas empresas, as mulheres ocupam somente 13% dos cargos executivos e recebem salários 25% menores do que os homens no mesmo cargo. Representam, no país, 50% da força de trabalho e são responsáveis individualmente por 40,5% dos lares brasileiros, além de ter dupla e às vezes tripla jornada devido às múltiplas responsabilidades que assumem.

Mesmo com tudo que representam na sociedade, as mulheres não têm participação nos espaços de decisão públicos e privados proporcional à sua importância.

Nesta quarta (4 de março), a Rede Nossa São Paulo lança a pesquisa “A mulher e a cidade”, que revela a situação das mulheres na capital paulista. Acreditamos que muitos dos problemas vivenciados em São Paulo repetem-se em muitas outras cidades do Brasil, e as discussões podem servir de base para a construção de programas e políticas públicas.

Uma das novidades desta edição é a possibilidade de analisarmos as diferenças entre as visões masculina e feminina em relação a temas como os afazeres domésticos e o cuidado com os filhos. A pesquisa mostra que mais da metade dos homens (55%) afirma dividir igualmente o cuidado com os filhos. E somente 37% das mulheres afirmam dividir os cuidados de maneira igual com os homens.

No que diz respeito à violência contra a mulher, 63% já sofreram algum tipo de assédio. O transporte coletivo continua sendo o lugar onde as mulheres sofrem mais assédio, com 43% das afirmações, número 18 pontos percentuais maior do que há dois anos. É provável que essa diferença seja provocada por um aumento de casos combinado com uma maior consciência das mulheres que identificam e denunciam o assédio.

É inadmissível registrarmos índices tão elevados de violência contra as mulheres nos tempos atuais, fruto de uma sociedade com fortes traços machistas. Para mudarmos essa situação, será necessária uma combinação de ações de curto prazo — que passam por combater a impunidade, aumentar a velocidade de investigação e ampliar os serviços de proteção—, e de longo prazo, relacionadas ao ambiente familiar e à educação.

Por um longuíssimo período as mulheres foram alijadas do poder, e isso tem relação direta com os problemas que vivemos hoje e nossa incapacidade de resolvê-los, como a pobreza, violência e desigualdade social, por exemplo, devido a falta de uma outra perspectiva nas tomadas de decisão da sociedade.

Mesmo com os avanços dos últimos cem anos, na atual velocidade de mudança atual levaremos quase outros cem para alcançarmos a equidade de gênero. Não estamos sendo capazes de construir mecanismos voluntários de mudança, e o exemplo de países que tornaram compulsória a participação das mulheres pode ser um caminho. Na Suécia, por exemplo, as mulheres ocupam 45% das cadeiras no legislativo e 50% dos ministérios. Poderíamos, aqui no Brasil, ter essa proporção como meta. Já representaria um avanço significativo e com alto efeito multiplicador.

Por fim, é importante ressaltar que a mudança necessária vai muito além dos números. Dependerá de uma visão mais ampla da sociedade sobre a importância da participação e da diversidade, com diferentes olhares para a tomada de decisões.

A presença em espaços de poder é somente um início, necessário, para conduzir a um momento em que mulheres — negras, brancas ou indígenas— possam ocupar um lugar que é seu e que vem sendo recusado há séculos.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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