Eleições municipais de 2020 emitirão sinais importantes ao país

Questões como saúde, educação e mobilidade dominam as eleições municipais e dialogam com o debate nacional

Estamos hoje a um ano das eleições municipais de 2020 que, mais do que em outros momentos, terá um importante papel para o futuro do país. Inevitavelmente os temas nacionais serão debatidos localmente e será difícil evitar que as disputas nacionais aterrissem nas cidades. Esse fenômeno, que hoje já vivemos, ganhará força no processo eleitoral.

As eleições de meio de mandato de 2018 nos EUA —embora somente legislativas— sinalizaram uma desaprovação ao governo Trump, com a perda da maioria na Câmara de Representantes. Neste último domingo, nas eleições municipais na Hungria, a oposição ao autoritário e nacionalista presidente Viktor Orban venceu nas dez maiores cidades do país: mais um sinal. As eleições municipais de 2020 no Brasil também emitirão sinais para as eleições presidenciais de 2022.

Se na eleição de 2018 não houve debate de ideias, como é usual nas campanhas presidenciais, em 2020 as diferentes visões de pais e cidades poderão ser confrontadas.

As questões sociais dominam as eleições municipais. Saúde, educação, emprego, mobilidade e segurança são os temas que mais despertam o interesse da população porque são os que mais a afetam no dia a dia. E muitos deles dialogam com o debate nacional.

A educação é o tema que mobiliza boa parte da população. O ensino formal gratuito e de qualidade para todos deposita no poder local as expectativas de avanço. Investir nas crianças e na carreira dos professores é, talvez, a mais importante ação de qualquer governo, federal, estadual ou municipal.

A capacidade do governo local gerar oportunidades de trabalho e renda em um quadro de crise econômica e de altas taxas de desemprego, atuando diretamente ou induzindo investimento privado, será tema relevante nas eleições.

Criar espaços de participação da sociedade em um momento de falta de confiança nos políticos e nas instituições tem enorme importância na gestão moderna de cidades e no aprimoramento da democracia. Os desafios atuais são tão grandes que é necessário ampliar a escuta e o diálogo para melhores tomadas de decisão.

As questões ambientais ganham força em função do crescimento do desmatamento na Amazônia e as reações pelo mundo. A ciência mostra que há uma relação direta entre inundações, secas, abastecimento de água, ilhas de calor —eventos que impactam a vida das pessoas— e o aquecimento global. O tema da Amazônia será, direta ou indiretamente, objeto de debate na eleição.

Um bom caminho para identificar candidatos comprometidos com questões ambientais será descobrir os que se comprometem com o Acordo de Paris, que pede compromissos de governantes em reduzir as emissões de gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global.

Cada vez mais cidades vêm assumindo compromissos independentemente dos governos centrais. Nos EUA, a decisão do governo Trump de sair do Acordo de Paris provocou reação em várias cidades da Califórnia, por exemplo, que decidiram assumir o acordo e avançar em ações para a redução de emissões. Seus governantes sabem que essa é uma agenda irreversível, e o posicionamento é um imperativo para o futuro e a qualidade de vida na cidade e para atração de investimentos de longo prazo.

É chegado o momento das cidades mudarem seu patamar de ação política e assumirem agendas importantes para contribuir com a construção de um país mais sustentável, com olhar para as futuras gerações.

O protagonismo das cidades pode transformá-las em reduto de esperança do avanço de importantes agendas socioambientais e conquistas da sociedade. As desigualdades sociais, equidade de gênero e raça além da agenda LGBT, entre outros, virão à tona nas eleições relacionando o local e o nacional.

As eleições de 2020 terão papel-chave para o futuro do país. Por isso, merecem, desde já, a melhor das nossas atenções.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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