Rodízio de água era 1ª opção da Sabesp; plano foi entregue em janeiro

‘Estado’ teve acesso com exclusividade ao plano de contingência, em que a companhia afirma que o manancial já sofria com a seca em 2013 e conclui que racionamento deveria ser planejado.

Por Fabio Leite

Recomendado pelo Ministério Público Federal (MPF) e descartado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), o rodízio de água na região da Grande São Paulo abastecida pelo Sistema Cantareira era o primeiro plano elaborado por técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para enfrentar a crise hídrica do maior manancial paulista. O plano foi formalmente entregue em janeiro ao Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), um dos gestores do sistema.

O Estado teve acesso ao plano de contingência, chamado “Rodízio do Sistema Cantareira 2014”, coordenado pelo superintendente de Produção de Água da Sabesp, Marco Antônio Barros. No documento, a companhia afirma que os reservatórios já sofriam com a seca em 2013, diz que “todas as estratégias” foram adotadas para “evitar” cortes no abastecimento e “constrangimento à população”, mas conclui que “o rodízio deve ser planejado em face da situação crítica de armazenamento nos mananciais”.

Em janeiro, a Sabesp afirmava que o Sistema Guarapiranga também estava “no seu limite de captação”, que “uma ampliação do avanço do Sistema Alto Tietê sobre o Cantareira se tornou praticamente inviável em caráter perene, servindo apenas para manutenções temporárias” e que o objetivo do rodízio seria “reduzir a produção do Sistema Cantareira para evitar o colapso dos mananciais e, consequentemente, do abastecimento da Região Metropolitana”. À época, o Cantareira estava com 25% da capacidade. Ontem, o sistema estava com 14,6%.

No plano, os técnicos da Sabesp dividiram as noves cidades da Grande São Paulo e os 8,8 milhões de habitantes abastecidos pelo Cantareira em três blocos e excluíram 969 mil moradores de regiões próximas de hospitais da relação de quem seria afetado pelo rodízio. Foram traçadas três alternativas de cortes no fornecimento, de acordo com a necessidade de economia. Segundo a própria Sabesp, a mais prática e eficiente seria o rodízio de 48 horas com água e 24 horas sem abastecimento, que resultaria em uma redução de 4.200 litros por segundo na vazão do manancial.

“O início do rodízio será determinado pela alta gerência da Sabesp, em função da avaliação técnica do comportamento atual e projetado do manancial, conforme as projeções de probabilidades da área de hidrologia da Sabesp”, afirma o plano. “Essencial é adotar uma linha de gestão do rodízio transparente, interna e externamente à Sabesp, com um contínuo acompanhamento capaz de atuar com agilidade e eficácia nas correções de rumo eventualmente requeridas”, finaliza.

Descartado

O rodízio foi descartado pelo governo do Estado. Segundo o governador, foi uma decisão técnica. Em fevereiro, a Sabesp lançou o programa de bônus para estimular a população a economizar, remanejou água de outros sistemas, incluindo Alto Tietê e Guarapiranga, e reduziu a pressão da água na rede à noite.

Segundo o governo, essas medidas fazem parte do “Plano de Contingência 2” e resultaram em economia de 8.400 litros por segundo em junho, o correspondente a um rodízio de 72 horas sem e 36 horas com água. Embora não tenha evitado a queda do nível do Cantareira, a Sabesp afirma que o rodízio agora é “desaconselhável” e pretende usar até 300 bilhões de litros do volume morto para não precisar decretar racionamento até março. 

Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo

Compartilhe este artigo