Sabesp estuda administrar o destino do lixo na Grande São Paulo

FABRÍCIO LOBEL, DE SÃO PAULO, E EDUARDO SCOLESE, EDITOR DE "COTIDIANO" - FOLHA DE S. PAULO

Empresa de água e esgoto do governo paulista, a Sabesp estuda agora ampliar sua área de atuação e começar a tratar também da destinação de lixo na Grande São Paulo.

A ideia, segundo o presidente Jerson Kelman, é que a empresa possa diminuir o impacto do lixo causado nos aterros sanitários da região metropolitana e, ao mesmo tempo, obtenha energia a partir da queima do material.

Essa energia seria usada pela própria Sabesp dentro dos processos de tratamento de esgoto. No ano passado, por exemplo, a empresa gastou R$ 935 milhões com despesas de energia elétrica.

"Isso é uma ideia ainda incipiente. Hoje, principalmente o destino do lixo é um problema grave no país. [Com essa ideia] podemos não transportar o lixo por grandes distâncias e aproveitar um combustível que é renovável", disse Kelman à reportagem.

Atualmente as grandes cidades do país gastam muito e emitem poluentes ao transportar para os lixões ou aterros sanitários distantes dos centros urbanos. "Poder resolver o problema perto de onde as pessoas moram, como acontece em Paris, é uma solução possível e técnica."

Em Paris, três estações são responsáveis por beneficiar e incinerar o lixo produzido por uma população de cerca de 6 milhões de habitantes da região metropolitana. O calor do processo gera vapor que aquece as casas e energia elétrica.

Essa nova ideia da Sabesp ocorre em um momento de respiro da companhia. De 2014 e 2015, a empresa ligada ao governo Geraldo Alckmin (PSDB) esteve com suas atenções quase que 100% voltadas à crise da água no Estado, com reservatórios à beira de um colapso e diferentes pontos da Grande SP submetidos a um duro sistema de racionamento.

Nesse período de estiagem, a companhia vendeu menos água e viu seu lucro despencar. Em 2016, após dois anos abaixo de R$ 1 bilhão, o lucro finalmente fechou em patamares "normais" –R$ 2,9 bi.

AMBIENTE

No caso do lixo, o presidente da Sabesp defende que, sob o ponto de vista ambiental, a incineração é mais viável do que a construção de aterros sanitários. A ideia de Kelman é de que as usinas ou estações de tratamento de lixo fossem dotadas de filtros atmosféricos para não poluírem o céu da cidade, assim como no exemplo francês.

Também nos planos do presidente, as estações poderiam ainda ter a capacidade de incinerar o lodo gerado durante o tratamento de água e de esgoto da empresa.

Atualmente, esse rejeito é dispensado em um tipo de aterro específico. Após determinado tempo, o chorume do material é devolvido à Sabesp que o trata para descarte.

MUNICÍPIOS IGNORAM LEGISLAÇÃO

Sete anos após a lei que previa o fim dos lixões no país, cerca de 3.300 municípios ainda despejam resíduos em áreas impróprias, o que provoca a contaminação do solo. De acordo com a norma, todos os lixões deveriam ter sido desativados em 2014.

O descumprimento da regra deu origem a um novo texto em discussão na Câmara dos Deputados que prevê a prorrogação para 2021. Até lá, todas elas teriam que criar seus próprios aterros ou contratar empresas para isso. Estima-se que sejam produzidos no Brasil 195 mil toneladas de lixo por dia.

De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), o projeto pode ser uma espécie de salvo-conduto para quem comete crime ambiental no país.

"Sempre foi crime lançar lixo no solo sem proteção. É necessário agora criar medidas estruturais que resolvam o problema. Senão, chegaremos em 2021 na mesma situação", disse Carlos Fernandes, presidente da entidade.

A Abetre estima que seria necessário investir cerca de R$ 5,8 bilhões na construção de novos aterros sanitários para dar fim aos lixões.

Na capital paulista, o lixo não reciclável é destinado a dois aterros sanitários. Um em São Mateus (extremo leste) e outro em Caieiras (Grande SP). Nos moldes do que prevê a Sabesp, ambos criaram usinas para a transformação do biogás (produzido por lixo) em energia elétrica.

De acordo com Fernandes, há exemplos de energia produzida pelo lixo que abastecem indústrias espalhadas pelo país, especialmente mineradoras. Essa energia também pode ser vendida no mercado.

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Raio-x da Sabesp

O que é
Fundada em 1973, é uma empresa de economia mista que detém a concessão dos serviços públicos de saneamento básico de SP; ela gerida pelo governo do Estado e atende 366 municípios

Principais serviços prestados hoje
> Fornecimento de água
> Coleta e tratamento de esgoto
> Produção e fornecimento de água de reuso

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Isso ocorre inclusive em estações de tratamento de esgoto na Baixada Santista, no litoral sul de SP, que têm que ser transportados pela serra do Mar até o planalto paulista e ser despejado em aterros.

Mas, se fosse incinerado, poderia render energia à empresa. Para esse passo, no entanto, é preciso ampliar os estudos na companhia. Por isso, a empresa pretende investir em tecnologia para gerar energia a partir do lodo.

Um dos projetos é o de que a Sabesp possa cobrar, em nome de prefeituras paulistas, a taxa de lixo. Em contrapartida, a empresa investiria na destinação final de lixo.

A ideia é construir usinas de incineração do lixo coletado na cidade próximo às atuais estações de tratamento de esgoto. Para o plano, no entanto, devem ser criadas novas instalações.

A nova lei de saneamento, de 2007, abriu essa brecha às empresas de água e esgoto. A Sabesp mudou seu estatuto e, na prática, está apta a ações também na área de drenagem e resíduos sólidos –no caso dos lixos, precisaria seguir o trâmite do licenciamento ambiental no Estado, por meio da Cetesb. Se a ideia avançar, a Sabesp terá de fazer um comunicado formal ao mercado.

Colaborou GIBA BERGAMIM JR. 

Matéria publicada na Folha de S. Paulo.
 

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