Não dá mais para fingir que São Paulo não será afetada pelas mudanças do clima

A versão final do Programa de Metas 2017-2020 da administração Doria simplesmente ignora o assunto.

Por Gabriela Vuolo, do Cidade dos Sonhos

Eleito com a promessa de inovação e eficiência, o prefeito João Doria Jr. parece não estar sintonizado com seu tempo. A versão final do Programa de Metas 2017-2020, que deve orientar a gestão da cidade até o começo da próxima década, simplesmente ignora o maior desafio da humanidade no século XXI: o aquecimento global. Não foi por falta de aviso. Durante o processo de elaboração e consulta do Programa de Metas, a atual gestão recebeu inúmeras propostas sobre temas essenciais para o combate ao aquecimento global: energia, resíduos, transportes e áreas verdes. A maioria esmagadora dessas sugestões, no entanto, foi ignorada.

Engana-se quem pensa que isso é papo de ambientalista. O aquecimento global já está na agenda de empresas e investidores. Uma pesquisa divulgada no Fórum Econômico Mundial de 2017 mostra que a mudança do clima está entre os riscos mais temidos pelas corporações. E segundo Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, cidades preparadas para a mudança do clima são também as que mais atraem investimentos – e, por consequência, empregos e oportunidades de inserção e ascensão social.

Os números falam por si. Ao ignorar o potencial do transporte público, a atual gestão condena a cidade a perdas milionárias. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas mostrou que os gastos gerados pelo trânsito em São Paulo passaram de R$ 17 bilhões, em 2002, para R$ 40 bilhões, em 2012. Uma pesquisa realizada pelo software de navegação GPS TomTom GO estimou em mais de R$ 80 bilhões o custo do tráfego para a cidade de São Paulo – mais do que o orçamento da prefeitura, de pouco mais de R$ 54 bilhões. Apesar de todas essas evidências, o programa é pífio na questão do transporte público e fecha os olhos para as emissões derivadas dos veículos individuais (carros e motos), responsáveis pela maior parte dos gases de efeito estufa provenientes do setor de transportes e do trânsito que paralisa a cidade todos os dias.

Ao desconsiderar o potencial das energias renováveis, o Programa de Metas impede o cumprimento da promessa do programa de governo de João Doria de adotar energia renovável na iluminação pública. A meta de reduzir em 20% os gastos operacionais da prefeitura – incluindo os gastos com energia – poderia ser facilmente alcançada (e até ampliada) se houvesse medidas de eficiência energética ou instalação de painéis solares nos prédios públicos da cidade. Mas nada disso foi proposto e fica difícil acreditar que São Paulo vai gastar menos com sua conta de luz se simplesmente mantivermos o que já vem sendo feito.

A cidade também perderá, ao longo dos próximos quatro anos, a oportunidade de economizar com resíduos sólidos. Segundo os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2010, a economia gerada com a reciclagem no Brasil chega aos R$ 3 bilhões anuais. Se todo o material reciclável que é destinado a lixões e aterros fosse reciclado, essa economia poderia ser de mais de R$ 8 bilhões. Num contexto de crise, é alarmante constatar que as metas não avançam na inclusão de catadores e catadoras de recicláveis na gestão de resíduos e não há qualquer compromisso com o aumento dos índices de reciclagem e compostagem na cidade. A geração de emprego e renda para as mais de 450 mil pessoas que trabalham com a coleta de materiais recicláveis nas ruas, prestando um enorme serviço ambiental para a cidade, poderia trazer outros ganhos para a cidade, como o fortalecimento de sua economia.

As mais de 500 páginas coloridas e bem diagramadas, junto com a propaganda constante nas redes sociais, podem até passar uma impressão de modernidade, mas a verdade é que não resistem a um olhar mais atento. O prefeito da maior cidade da América do Sul não parece estar em sintonia com os desafios colocados pelas mudanças do clima, e São Paulo poderá estar condenada a perder competitividade e qualidade de vida se a prefeitura continuar fingindo que o aquecimento global não vai chegar aqui. 

Artigo publicado originalmente na Revista Época