Após crise hídrica, São Paulo não fez toda a lição de casa

FABRÍCIO LOBEL – FOLHA DE S. PAULO

Em meio à pior estiagem de sua história, em 2014 e 2015, São Paulo deixou milhares de moradores com as torneiras secas em algum momento do dia, recorreu ao volume morto (reserva emergencial do fundo das represas) do Cantareira, acelerou obras de interligação entre reservatórios, impôs sobretaxa pelo consumo excessivo e bônus para os que economizavam água.

O cenário crítico melhorou neste ano, mas, apesar do anúncio de fim da crise pela gestão Alckmin (PSDB), a situação não chega a ser tão confortável. Para se ter uma ideia, o consumo de água na Grande São Paulo no início da crise era de 67,4 mil litros por segundo. No auge da crise, esse consumo chegou a ser reduzido em 26%, chegando a 49,9 mil litros por segundo. Mas atualmente, já subiu e está em 58,9 mil litros por segundo, uma queda de 12,6%, em relação ao início da crise.

E o alerta voltou a ser aceso no mês passado – julho mais seco dos últimos cinco anos no Cantareira.

Maior reservatório de abastecimento da região metropolitana, esse sistema está com 58,5% da capacidade, incluída a cota do volume morto. Bem mais que os 13,9% de um ano atrás, mas ainda aquém da média de 71% antes da crise nessa época do ano.

Para especialistas ouvidos pela Folha, São Paulo deixou de aproveitar a crise hídrica para promover algumas mudanças estruturais na gestão da água e saneamento –de forma a não depender tanto das variações climáticas.

Como parte da lição de casa ainda pendente, eles citam investimento em reaproveitamento do esgoto e mudança duradoura do padrão de consumo de água. "Não adianta termos sofrido tanto com a crise, se não tirarmos lição dela", diz Edison Carlos, presidente do Instituto TrataBrasil.

ÁGUA DE REÚSO

Tratar parte do esgoto urbano de maneira tão pura ao ponto de ser possível beber a água obtida nesse processo. Segundo especialistas, esse é o futuro do abastecimento sustentável no mundo. Isso já está presente no setor industrial –por exemplo, com o Aquapolo (empresa da Sabesp e da Odebrecht Ambiental e maior produtora de água de reúso do país). Mas falta regulação sanitária para abastecimento público.

Em 2014, o governo do Estado chegou a anunciar a construção de duas estações de tratamento de esgoto voltadas para isso. Na época, a medida foi divulgada como um avanço de longo prazo na segurança hídrica da região. O projeto, porém, foi paralisado. A Sabesp diz ter optado por soluções mais rápidas e baratas para superar a crise.

REDUÇÃO DE PERDAS

Segundo a companhia de abastecimento, em São Paulo, a cada cinco litros de água tratados, um é perdido nos canos da própria empresa. Para o hidrólogo Carlos Tucci, é irracional que se busque água de fontes cada vez mais distantes enquanto as tubulações deixam vazar tanta água.

Se forem somadas as perdas por fraudes e "gatos", esse índice sobe para 30% de toda a água tratada –contra 37% na média nacional. Há anos, um programa de redução de perdas é tocado em São Paulo, mas os avanços já não cumprem as metas. A Sabesp diz que esse é um processo longo e contínuo.

REDUÇÃO DE CONSUMO

Quando passou por uma forte seca, em 1994, a cidade de Nova York percebeu que era preciso reduzir de maneira duradoura o consumo de água da população. A prefeitura local financiou a troca de vasos sanitários por modelos mais econômicos. O programa substituiu 1,3 milhão de privadas na década de 1990. Em 2014, uma nova etapa do projeto foi iniciada.

O governo paulista diz estudar um plano semelhante. Uma alternativa pode ser a individualização de hidrômetros em condomínios residenciais, mas a medida ainda é cara (isso é previsto em lei federal, mas só para prédios novos, daqui a cinco anos).

Para Carlos Tucci, a individualização de hidrômetros deverá passar pela resistência das empresas de saneamento. "Obviamente, não interessa à empresa de saneamento reduzir o consumo, pois diminuirá a arrecadação."

ÁREAS IRREGULARES

Em muitas favelas paulistas, a água encanada só chega por meio de "gatos". A prática expõe a população mais pobre a contaminação e aumenta o volume de água perdida nos canos. Para o presidente da Sabesp, em algumas dessas áreas irregulares, é possível fornecer água legalmente, mas, por questões técnicas, seria difícil coletar o esgoto.

Nessa condição, a Sabesp alega ter receio de ser criminalmente responsabilizada por oferecer água a uma população sem dar o destino adequado ao esgoto local. "Ficamos diante de um dilema", afirma Jerson Kelman, presidente da empresa. "Ou continuamos aceitando essa condição, em que a população é prejudicada e há perdas de água, ou iniciamos um diálogo sistêmico [com promotoria e prefeituras]."

Matéria publicada na Folha de S. Paulo.
 

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