Como uma guerra pode impactar a democracia?

Foto: Matti / Pexels

Políticos autoritários aproveitam-se desta situação de fragilidade para reforçar o individualismo e a competição

O medo nos coloca na defesa. E quando estamos na defesa tendemos a pensar individualmente. Não é por outro motivo que vivemos bombardeados por programas e notícias que nos amedrontam e nos levam ao desalento: neste estado de espírito, tornamo-nos presas fáceis.

Uma guerra assusta, sobretudo num mundo com armas nucleares de enorme poder destrutivo. O desentendimento entre lideranças distantes, mas poderosas, pode afetar a todos. O impacto da guerra é difuso e muito utilizado por lideranças políticas, que se aproveitam da fragilidade emocional para apresentar soluções fáceis para um contexto complexo.

Nestes tempos, o maniqueísmo surge protagonista: o bem contra o mal e heróis e vilões são identificados a partir de uma análise superficial que despreza o entendimento mais profundo de nossa realidade. Seria importante aprendermos no caos para que situações como esta não se repitam, mas teimamos em repetir a história, sem aprender com ela.

O estado de tensão permanente resultante do medo tem conduzido a soluções individuais para problemas coletivos. Combater a violência através do estímulo ao armamento das pessoas não condiz com as experiências de segurança de boa parte dos países do mundo, mas serve a interesses de grupos que veem nas armas a condição de impor sua vontade: os inimigos são os que pensam diferente. E isso não é bom para a democracia.

Na dimensão coletiva, a resposta vem por meio do aumento de investimento bélico. Países com enorme déficit social aumentam os investimentos em armas, em detrimento de áreas sociais e da redução da pobreza e desigualdades.

A crise econômica que se estabelece pune sobretudo os mais vulneráveis. Cresce a taxa de desemprego e a inflação, aumenta a violência e as tensões sociais. Nesse contexto, o preconceito, a exclusão e a xenofobia são reiterados. Políticos autoritários aproveitam-se desta situação de fragilidade para reforçar o individualismo e a competição, em um momento em que as soluções deveriam ser coletivas. A urgência é uma desculpa para soluções centralizadas, que prescindem do diálogo e da escuta, tão caros aos ambientes democráticos.

O curioso é que, além de gerar impactos na democracia, a atual guerra na Ucrânia está colocando em risco alguns princípios do nosso modelo de desenvolvimento. Ao bloquear os recursos da Rússia investidos no sistema financeiro, o Ocidente quebra o pilar de confiança que é a base do sistema. Quais os critérios para que se possa bloquear recursos? Quem decide? Quem é capaz de atirar a primeira pedra?

Não menos intrigante foi a decisão do bloqueio econômico das empresas. Independentemente de quem é a vítima, o mercado sempre faz questão de se dizer apolítico, regido pela livre concorrência e liberdade de ação. Estas são as bases do sistema, que permite às empresas atuação independente das ideologias vigentes, na busca do resultado financeiro para seus acionistas. Pois o bloqueio obedeceu a política, deixando de lado os princípios do mercado. Como a partir de agora se justifica a imparcialidade e independência das empresas?

É prudente, portanto, nos atentarmos aos impactos da guerra do ponto de vista social, político e econômico, mas também da confiança. No presente momento, observa-se, salvo as exceções de praxe, que a extrema-direita tem se aproveitado das incertezas e inseguranças das pessoas para apresentar propostas oportunistas e que tendem a reduzir o espaço democrático.

O crescimento de Marine Le Pen, na França, e a vitória de Orban na Hungria, devem servir de alerta para que as propostas que defendem a democracia, seja de que partido for, tenham sucesso. Cabe à população identificar os representantes originais da extrema-direita antidemocrática ou os que se travestiram de liberais, mas carregam seu DNA. Somente assim poderemos evitar que o retrocesso permaneça reinando e que possamos iniciar a retomada na direção de um caminho democrático que enfrente nossos problemas reais.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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