Chega o tempo das cidades antirracistas

Ilustração: Olivia Abrahão

Gestão pública deve reconhecer o problema para, então, atuar de maneira transversal em ações que promovam a equidade racial

Há mais de 130 anos a abolição foi decretada. O início do fim de um período que não honra o Brasil, um dos países mais cruéis do mundo em relação à escravidão.

Mesmo depois de tanto tempo, os casos de racismo seguem diários nas cidades brasileiras, para não dizer horários: todos os dias fazendo tudo sempre igual, emprestando de Chico Buarque a repetição de seu cotidiano. Alguns chegam às manchetes da grande mídia, mas a esmagadora maioria fica à sombra, aguardando uma justa notoriedade que nunca alcança.

Os negros são 56% da população e as mulheres 52%, sendo as mulheres negras, portanto, o maior segmento dos brasileiros (29% do total). Mas quantas são as prefeitas negras? Apenas 209, ou seja, elas estão em 3,7% dos 5.570 municípios brasileiros. E deputadas federais negras? São 13, ou 2,5% dos 513 que compõem a Câmara.

Essa falta de representatividade na política não é acaso: o racismo é estrutural no Brasil. Movimentos da sociedade civil, artistas e esportistas têm erguido o punho fechado em protesto contra a violência do Estado que, além de tudo, reage de forma desproporcionalmente lenta frente a gravidade do problema. A esmagadora maioria das lideranças políticas é formada por homens brancos que não dão a devida atenção ao problema, tornando-se cúmplices do racismo da sociedade.

A violência nas cidades é outro foco de tensão para a população negra, sobretudo a jovem, que tem 2,5 vezes mais chances de ser morta no Brasil em comparação aos jovens brancos. Negros são 77% das vítimas de homicídio hoje no país. Jefferson Tenório, em seu extraordinário livro “O Avesso da Pele”, nos enche de emoção ao relatar a vida de seus personagens negros em uma cidade. Jefferson, por sinal, acaba de ter a vida ameaçada, em mais uma evidência da violência real.

O setor privado também tem seus desafios. Pesquisa do Instituto Ethos mostra que apenas 0,5% dos cargos executivos das empresas são ocupados por mulheres negras, enquanto os negros recebem 17% menos do que brancos no mesmo cargo (Pesquisa de 2020 da PUC-RS).

Diante de todas essas evidências, é preciso assumir ações afirmativas para reverter essa situação. Na contramão das medidas de compensação histórica que começam a surgir pelo mundo, o LinkedIn tomou a decisão de proibir anúncios de organizações que oferecem vagas com ações afirmativas. Como reação, Natura e Avon, entre outras empresas, assinaram um Manifesto Empresarial em Defesa da Ação Afirmativa em que reafirmam a necessidade de processos seletivos que revertam as desigualdades de oportunidades. Após a reação, a plataforma recuou e passou a aceitar “divulgação de publicações que expressem preferência por profissionais de grupos historicamente desfavorecidos”.

E as cidades, qual o papel têm no enfrentamento ao racismo?

A gestão pública deve reconhecer a existência do problema para, então, atuar de maneira transversal, envolvendo todas as secretarias em ações que promovam a equidade racial. O prefeito deve ser a liderança que incorpora a causa, sem o que, corre-se o risco do tema ficar relegado aos relatórios de ação de fim de ano, mas sem mudanças concretas.

Como responsáveis pelos serviços mais diretos para a população, os municípios podem apoiar a causa antirracista no planejamento da gestão, sistematizando dados sobre as desigualdades locais, integrando todas as secretarias com vistas à promoção da equidade racial e promovendo mecanismos que melhorem o diálogo entre gestão pública e sociedade civil.

O mapeamento das desigualdades raciais na saúde e educação, a criação de espaços de participação e organismos de promoção da igualdade racial e campanhas de comunicação também são ações possíveis. O Instituto Cidades Sustentáveis está desenvolvendo projeto para que cidades brasileiras se tornem referência em equidade racial, estimulando programas, políticas e envolvendo a sociedade.

A permanecer a velocidade de transformações dos últimos tempos, não alcançaremos cidades antirracistas nem em 100 anos. A grande saída para problemas estruturantes está no campo de programas e políticas públicas que puxem transformações em escala e criem uma nova cultura no país. É este o mais notável papel da coisa pública, de quem devemos exigir a ambição necessária para avançar neste tema tão relevante.

A diversidade no Brasil não é um problema, mas sua enorme riqueza. Quanto mais a política e as empresas refletirem a sociedade, incorporando as perspectivas de todos, menos riscos corremos, e mais rapidamente poderemos superar o difícil momento pelo qual passamos.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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