Cidades não impedem guerras, mas podem combater a violência contra as mulheres

Pesquisa mostra que aumentou a sobrecarga das mulheres nos afazeres domésticos durante a pandemia.

Guerras são deploráveis. Sempre! Provam mais a falência de nossa capacidade de diálogo do que a força bruta das Nações. Nos afetam e reduzem como humanidade, ferindo de morte, sem balas, a expectativa de construção de uma sociedade mais evoluída, não necessariamente mais tecnológica e rica.

É difícil para uma cidade responder a uma guerra. Sua capacidade de intervenção frente aos interesses de poder e geopolíticos é muito limitada. Com isso, perdemos todos, mas sobretudo as populações que vivenciam os conflitos de perto.

Em crises provocadas por guerras, como a que vivemos hoje na Ucrânia, salta aos olhos a incapacidade de negociação dos países e a falta de lideranças políticas que estejam à altura do momento que vivemos e que priorizem —não só na retórica— uma cultura de paz, a redução das desigualdades entre os países e o enfrentamento das mudanças climáticas.

Mesmo ainda vivenciando uma pandemia que nos encurralou, em que tínhamos um desafio comum frente ao vírus, adotamos desde o princípio uma lógica de competição por materiais, equipamentos e vacinas, numa disputa insana que desdenhou da gravidade do momento. Mal ensaiamos sair da pandemia e entramos em uma guerra. Realmente temos dificuldade de aprender com nossas experiências. É uma pena.

Mas se as cidades têm pouca governabilidade sobre guerras, têm muita sobre temas como saúde, clima, desigualdades, violências e preconceitos que também geram sofrimento. E podem reagir, ao identificar problemas e propor caminhos que os solucionem. É o que muitas entidades da sociedade civil fazem. O Instituto Cidades Sustentáveis e a Rede Nossa São Paulo estão lançando hoje uma pesquisa sobre as mulheres e a cidade que integra as ações do mês da mulher e trata do assédio e da violência contra a mulher, e da desigualdade na divisão de tarefas domésticas.

A pesquisa mostra que reduziu significativamente a percepção de que os afazeres domésticos são divididos igualmente entre homens e mulheres: caiu de 47%, em 2020, para 37% em 2021, sinalizando que há uma sobrecarga das mulheres em relação a estas atividades.

Quanto à violência doméstica, 34% dos entrevistados e entrevistadas dizem que presenciaram ou souberam de casos de alguma amiga que já sofreu violência. Portanto, aproximadamente uma em cada três pessoas conviveram com violências. Quando se analisa o recorte racial, há uma diferença de 7 pontos percentuais (para mais) no caso das mulheres pretas e pardas.

Simplesmente a metade da população, 52%, aponta o transporte público como o local onde correm o maior risco de assédio. Ele está no topo do risco de assédio pelo quarto ano seguido, o que denota que a gestão pública não está dando a devida importância para o tema.

É sempre bom lembrar o contexto que nos envolve para podermos ter ideia do tamanho do desafio. No que diz respeito à representação política, São Paulo tem hoje 13 vereadoras, ou 24% dos 55 parlamentares. É a maior bancada feminina já formada na cidade. Em 2012 eram 5 vereadoras (9%) e em 2016 eram 11 vereadoras (20%).

No Executivo são 12% de prefeitas eleitas no Brasil, número igual ao de 2016, mostrando a estagnação em um patamar baixo, frente aos 52% de mulheres na população do país. No mundo da política, fica evidente a sub-representação das mulheres e o enorme desafio neste campo.

No mundo empresarial, embora venham ocorrendo avanços na equidade de gênero, as mulheres ainda são minoria absoluta nos cargos executivos e recebem remuneração 21% menor do que os homens no mesmo cargo.

É importante registrar que durante o ano de 2020 ocorreram 1.350 feminicídios no Brasil, com uma morte a cada 7 horas (dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Portanto, estamos diante de um enorme desafio e nossas instituições em nível federal, estadual e municipal são responsáveis por enfrentá-lo. As cidades devem estruturar processos que estimulem uma cultura de paz. Têm recursos, ferramentas, capacidade de convocação e comunicação para tanto.

Não é difícil criar programas e políticas para promover a equidade de gênero, a começar pela ampliação da participação feminina em espaços de representação e tomada de decisão; equidade na composição de conselhos e do alto escalão na gestão pública e privada; formação na área de educação e saúde; além da ampliação dos serviços de proteção à mulher e campanhas de comunicação dirigidas aos frequentadores de espaços onde ocorrem denúncias de assédio.

Fica claro, entretanto, que para alcançarmos a equidade de gênero temos que suplantar desafios culturais que nos ancoram em um passado de preconceitos e machismo ainda não superados, ao mesmo tempo que devemos criar programas e políticas públicas que orientem os cidadãos em geral e punam os que cometerem violências.

Se as cidades estão de mãos atadas frente às guerras entre países, muito têm a fazer em relação à equidade de gênero. Os números de feminicídio são da proporção de uma guerra, de longo prazo, banalizada e que não usa mísseis hipersônicos, mas armas rudimentares que matam da mesma forma. Não se pode mais admitir violência contra as mulheres e os governos locais e empresas têm importante papel na mudança desta situação. Existe a meta, estabelecida pela ONU, de alcançarmos a equidade de gênero até 2030. É possível, mas temos que agir já, dando prioridade ao tema.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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