Os limites da humanidade: ‘Somos tecnologicamente um sucesso e culturalmente um fracasso’

Não convertermos nosso enorme potencial em feitos humanos, no mais profundo sentido da palavra

A frase de Edgar Morin que dá título a este artigo está no final da exposição “Os Limites da Humanidade”, em cartaz no Museu do Homem, em Paris. A provocação se instala como a perseguir pelas ruas os que voltam à vida quando deixam o espaço.

A ideia de competir com outros e entre nós mesmos nos acompanha há muito tempo, mas é um tema tratado ali com muita sensibilidade, nos convidando a repensar a visão de superioridade, crescentemente estimulada nos últimos séculos. Até porque, este período de pandemia sugere mudanças individuais e coletivas que não deveriam ser desperdiçadas.

Somos realmente únicos? Superiores a outros animais?

A comparação entre humanos e outros seres vivos é a primeira coisa que surge, confrontando-nos com a arrogância construída para inflar nosso ego. Será que só os humanos têm capacidades cognitivas, artísticas ou estéticas?

Então, um vídeo mostra um peixe criando, com seu movimento, uma obra de arte na areia do fundo do mar, uma ave utilizando uma ferramenta (varinha) para buscar alimento e um elefante pintando um quadro, um belo quadro diga-se, com sua delicada tromba. Somos os únicos que criamos ferramentas e arte? Todas as respostas são negativas: não somos os únicos.

Foi a cultura ocidental que, especialmente, apostou na ideia de separação entre humanos e outros seres vivos, até que Darwin desenvolveu sua Teoria da Evolução em 1859, balançando as bases da visão antropocêntrica.

Somos um ciborgue?

Na sala seguinte, nos defrontamos com a nossa fascinação pela tecnologia, e a ideia de nos tornarmos ciborgues para superar fragilidades. A fantasia do ser híbrido, entre homem e máquina, confere enorme poder ao humano e nos embala há muito tempo. O pano de fundo é o aprimoramento da espécie, buscando evitar sofrimentos e doenças. Este ser humano híbrido poderá ser curado com uma associação entre biologia e tecnologia. À medida que a exposição avança, a desconstrução de ideias e símbolos que criamos vai se aprofundando e nos colocando contra a parede. Será que somos tudo isto, mesmo?

Somos campeões?

A busca por superar limites é supervalorizada em muitas áreas da sociedade contemporânea, implicando danos colaterais que vão do uso de drogas ao estresse mental. A tirania dos recordes é a ponta de uma cultura que glorifica os campeões sem considerar seus impactos. Na exposição, dois exemplos ilustram nossa insignificância: Michael Phelps, 23 vezes medalhista de ouro em Jogos Olímpicos, nada tão rápido quanto uma carpa; e Usain Bolt, reconhecido como o maior velocista do mundo, corre na velocidade de um gato. Somos mesmo essa sumidade?

Somos imortais?

Durante aproximadamente 200 mil anos, a média de vida das pessoas esteve abaixo de 30 anos. Em 2021, a expectativa de vida no mundo é de 73 anos.

No Brasil, a taxa no ano de 1900 era de 33 anos, e hoje é de 76 anos: mais do que dobrou em 120 anos.

A pessoa mais velha do mundo foi Jeanne Calment, que viveu 122 anos e faleceu em 1997. Tem crescido o número de centenários e de supercentenários (quem vivem mais de 110 anos). Embora muitos sigam apostando em recordes, o isolamento e a dependência parecem ser os limites da longevidade. Mesmo assim, a maioria de nós segue aspirando à vida mais longa possível, com boa saúde.

A 6″ crise da biodiversidade e o apocalipse.

Distraídos com nossos jogos de sobrevivência, desdenhamos das desigualdades e avançamos na deterioração do planeta. Surgem então alguns cenários catastróficos. A indústria cinematográfica, especialmente Hollywood, influenciou nossa imaginação e criou (segue criando) filmes de ficção que antecipam o que está por vir. Cenas curtas são projetadas gerando efeito nos espectadores, que relacionam o caminho que temos percorrido com o impacto de nosso modelo de vida.

E agora?

O final de ano, combinado com um primeiro momento de alívio frente ao sofrimento da pandemia, nos convida a parar e pensar. O que espanta é —independente de sermos ou não melhor do que os outros, mais velozes, mais “inteligentes” e tecnológicos— não convertermos nosso enorme potencial em feitos humanos, no mais profundo significado da palavra.

Mais de um bilhão ainda passam fome; mais de quatro bilhões são pobres; a exclusão de grandes parcelas da humanidade fica evidente na desigualdade das vacinas. A crise climática surge como resposta clara ao nosso descaso com o impacto desse jeito de viver, produzir e consumir.

Ainda é possível a reversão desse quadro, mas para isso a lógica do modelo que estimula o individual, a competição, o sucesso a qualquer custo e a busca alucinada por tecnologia como panaceia para nossos problemas, precisa ser reavaliado. A exposição tenta nos dar uma chacoalhada para que, ao sairmos cambaleantes, como que embriagados com a nossa insensatez, possamos superar a ressaca e recolocarmo-nos com humildade, lucidez e sensibilidade diante de temas que temos sido incapazes de encarar.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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