O que significa paz em um mundo tão violento?

Fórum da Paz de Paris propõe repensar formas de construir consensos para o enfrentamento dos desafios globais

Ao final da Segunda Guerra Mundial era clara a necessidade de criação de espaços de diálogo para evitar a eclosão de novas guerras –e surge a ONU em um mundo com 2,5 bilhões de pessoas. Hoje, 75 anos depois, em um mundo com 7,7 bilhões de habitantes, está evidente que os métodos de então já não dão conta da complexidade dos desafios atuais da humanidade e precisam ser redesenhados.

O Fórum da Paz de Paris reconhece e valoriza o multilateralismo, ao mesmo tempo que se propõe a discutir o que deve ser aprimorado para construir consensos e debater seus principais desafios.

Sem melhorar o diálogo e a maneira de deliberar globalmente, será difícil avançar. O Fórum da Paz, ao estimular o encontro entre as Nações, chama a atenção para as fragilidades do processo atual, e propõe repensar formas de construir consensos para o enfrentamento dos desafios globais.

Aumentar a participação de países nas tomadas de decisão e incorporar a participação da sociedade civil são alguns dos elementos que podem ampliar a legitimidade das decisões, superando o anacrônico conselho de segurança atual e seus cinco países com direito a veto. Que, não conseguindo avançar nos temas importantes do momento, reduzem sua atuação a um pobre repertório de interesses geopolíticos individuais, ou regionais, deixando as questões de interesse comum em segundo plano.

Na sessão de abertura do Fórum de 2021, Kamala Harris, vice-presidente dos EUA, centrou sua fala na desigualdade evidenciada na pandemia, citando a existência de mais de um bilhão de pessoas que passam fome no mundo e as mais de 50% que não têm acesso à internet, concluindo que não podemos mais aceitar estes fatos.

Emmanuel Macron, presidente da França, chamou a atenção para a necessidade de cooperação entre Estados, empresas, ONGs e movimentos sociais, além do compromisso universal com o combate à pandemia, com a agenda do clima, da biodiversidade e a defesa das liberdades e da democracia.

Este foi o tom da abertura, ficando clara a satisfação geral com o retorno dos EUA à arena do multilateralismo, depois do afastamento durante a era Trump.

Nos tempos atuais, o conceito de paz vai muito além de evitar guerras e fica evidente a necessidade de aprofundar os temas que podem conduzir aos desequilíbrios que dão origem à violência na sociedade.

Neste sentido, reduzir as desigualdades, que geram enorme sofrimento e constrangimento social, é avançar na paz. Enfrentar as mudanças climáticas, que atingem a todos, mas de maneira mais forte os vulneráveis, também é avançar na paz.

Aprimorar a democracia, melhorando a governança digital, lutando contra as fake news e as ameaças à imprensa, é promover a cultura de paz. Alcançar a equidade entre homens e mulheres, é paz. Esses foram alguns dos temas debatidos no Fórum.

Se não trabalharmos estas questões, estaremos correndo o risco de repetir a história e manter os atuais desequilíbrios em um momento crítico, em que estamos atingindo os limites do planeta.

Nossa incapacidade: de reduzir as desigualdades entre países e dentro dos países; de enfrentar a crise climática que tem impacto cada vez maior na vida das pessoas; de diminuir a influência das empresas na democracia, o que reduz a confiança na política e nas instituições; e de reduzir o impacto das redes sociais nos processos eleitorais com desinformação e fake news, tem gerado riscos de governos autoritários, que se beneficiam da democracia para chegar ao poder e, uma vez lá, atacá-la.

São temas aos quais devemos estar atentos se acreditamos que a superação deste momento passa pela construção de uma cultura de paz que também incorpore solidariedade, justiça e convivência com as diferenças.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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