Pílulas da realidade em São Paulo

Pesquisas recentes revelam fragilidades e caminhos para superação de desafios na cidade

A análise de dados de pesquisas recentes revela as fragilidades e, ao mesmo tempo, sugere alguns caminhos para superação de desafios na cidade de São Paulo. Na sequência, destaco alguns dos principais achados das pesquisas realizadas pela Rede Nossa São Paulo, principalmente na de mobilidade, realizada em parceria com o Ipec (antigo Ibope) desde 2007, e na edição especial do Mapa da Desigualdade, publicada neste mês de setembro, e que aponta os efeitos desiguais da Covid-19 em São Paulo a partir das perspectivas de raça/cor, renda e local de moradia na cidade.

Muda a mobilidade na cidade na retomada das atividades
Andar a pé foi o meio de locomoção que mais cresceu, chegando a 20% da população. O desemprego é um dos fatores que pode explicar a mudança. O ônibus segue responsável pelo transporte de 1/3 da população e 25% dos paulistanos usam o automóvel. Só 1% utiliza a bicicleta como meio de transporte, sendo ainda um privilégio dos homens jovens e de renda mais elevada. A redução da violência e uma maior segurança viária são os principais motivos que fariam com que as pessoas utilizassem mais este modal.

A crise econômica impacta a mobilidade
Cerca de 35% deixam de usar automóvel devido ao preço do combustível, ao passo que a cidade atinge seu maior índice de pessoas que fazem da caminhada o meio de locomoção.

35% dizem que utilizariam o transporte coletivo
…desde que a lotação e o tempo de espera fossem menores, deixando claro o desafio do aumento da frequência dos ônibus.

Os riscos nas calçadas, pontes e viadutos
Nota técnica do Centro de Estudos da Metrópole, ligado à USP, aponta que as calçadas nas periferias da cidade são mais estreitas do que nas áreas centrais. É exatamente nessas áreas que, historicamente, o deslocamento a pé é majoritário. Haveria, assim, a necessidade premente de políticas públicas para melhorar as calçadas —largura, sinalização, obstáculos, desníveis e buracos— que geram risco aos pedestres.

Os riscos nas ciclovias
Cerca de 35% andariam de bicicleta não fosse o medo em relação ao risco de conflito com automóveis e ônibus. Ainda vivemos uma cidade voltada ao automóvel, onde boa parte dos motoristas vê o pedestre ou o ciclista como inimigo.

Aumenta o desemprego
A geração de trabalho e renda em um contexto de crise econômica é prioridade para evitar o aumento da pobreza, em um contexto no qual 43% das pessoas afirmam que tiveram sua renda diminuída no último ano. O auxílio emergencial vai se revelando uma necessidade permanente em nossa sociedade.

Explode o número de moradores de rua
Em 2015, eram 16 mil pessoas vivendo nas ruas da cidade. No último censo da população em situação de rua, de 2019, foram identificadas mais de 24 mil pessoas, quase o dobro do número de cinco anos antes. Desde então, este número só aumentou, como é visível pela cidade, e estima-se que já são mais de 30 mil pessoas nessas condições em São Paulo.

Pobres morrem mais que ricos
A regra de três aplicada a problemas provocados pelo homem —como a desigualdade— nunca foi tão macabra. A edição especial do Mapa da Desigualdade referente aos efeitos da Covid-19 em São Paulo aponta que, em distritos com renda familiar quatro vezes menor, o número de óbitos de pessoas com até 60 anos foi quatro vezes maior. A relação entre a diferença de renda e o número de óbitos não deixa dúvidas sobre a importância de políticas de suporte econômico direto. Investimentos desiguais em locais desiguais é uma das ações relevantes para a reversão desse quadro.

Uma das maiores comorbidades nas cidades é a desigualdade
No mapa que mostra a relação entre renda familiar e óbitos de idosos por Covid-19, o local da moradia é determinante: ocorre o dobro de mortes em um distrito pobre em relação a um distrito rico da cidade. Um caminho é inverter as prioridades, direcionando-as para as populações mais vulneráveis.

Negros morrem mais que brancos
O mapa da desigualdade confirma a perversa relação entre raça e óbitos. Ao comparar as mortes de negros e brancos que moram em um mesmo distrito da cidade surge mais um dado que confirma o racismo estrutural de nossa sociedade: entre os moradores do Itaim Bibi morreram 70% a mais de negros do que de brancos por Covid-19.

Mulheres sofrem mais violência na pandemia
Cresceu a violência contra as mulheres no ambiente doméstico, evidenciando a necessidade de combate ao machismo. Cerca de 83% das mulheres entrevistadas na pesquisa da série “Viver em São Paulo: Mulher”, lançada neste ano, afirmam que o assédio e a violência de gênero aumentaram no período recente.

Mais leitos de UTI nos distritos mais ricos
A oferta de leitos de UTI está concentrada em somente três das 32 subprefeituras da cidade, justamente as localizadas em distritos mais ricos (Pinheiros, Vila Mariana e Sé).

A educação não está preparada para ser remota
Cerca de 84% da população paulistana afirmam que problemas de conexão com a internet impossibilitaram um acompanhamento adequado das aulas na pandemia. A falta de infraestrutura nas escolas, de equipamentos e internet para os alunos e de treinamento para professores evidencia alguns dos desafios atuais.

Participação e transparência
Os desafios que temos são enormes e a criação de mecanismos de participação e transparência são chave para a superação deste momento. A colaboração entre sociedade civil e governos é um imperativo de nossa conjuntura, e a melhor maneira para desenhar soluções.

A mensagem é clara e não deixa dúvidas quanto às prioridades e os investimentos que devem ser feitos na cidade, considerando que epidemias e crises social e climática são parte da realidade que fingimos não ver, mas que seguirão até o momento em que as encararmos com a atenção que merecem.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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