Um jogo pode rimar saudade com necessidade ou irresponsabilidade com morte

Pessoas podem até jogar, mas governos não podem investir em risco

A saudade era tanta que a mãe tinha surgido inteira no sonho daquela noite. Apareceu tão nítida que ele ficou intrigado ao acordar e, fugindo das análises freudianas, associou o sonho ao ano de nascimento da mãe, 1918. E decidiu fazer sua fezinha no jogo (apostador contumaz que era) na permanente busca da solução para as agruras financeiras que lhe acompanhavam por uma vida.

A aposta, naquele dia, era a saída que rimava saudade com necessidade. Apurado o resultado, não deu outra: 1918 na cabeça. Dinheiro na mão é vendaval, como nos alerta Paulinho da Viola. Mal recebeu o prêmio, pegou o carro e foi para a cidadezinha onde morava a mãe, buscar aconchego e matar a saudade.

No encontro regado a beijos e abraços, fez questão de presenteá-la com parte do prêmio, num gesto de compartilhamento com quem tinha sido sua maior inspiração. Surpresa, ela pergunta o porquê do “presente” e ele conta a história dizendo que associou o sonho com ela a 1918, o ano de seu nascimento. Para então ouvi-la dizer: mas, meu filho, eu nasci em 1921. Atônito, constata que acertou a aposta errando o número, como em tantos desencontros que teve na vida.

Pessoas podem até jogar, inspiradas por sonhos, intuições ou o que quer que seja. O risco é perder alguns trocados e encará-los como o necessário investimento na ilusão de alcançar o conforto material inatingível, para a maioria, pela lida da vida.

Mas, à medida que aumenta a responsabilidade, jogos são proibidos. Empresas sérias não investem em risco; governos, então, nem se fala, por lidarem com recursos públicos. Agora, quando o que está em jogo são vidas, é impensável que alguém tenha a coragem de apostar.

Foi o que aconteceu no Brasil. O governo federal resolveu fazer do enfrentamento à pandemia um jogo e apostou alto no tratamento precoce e no desestímulo ao isolamento, buscando a imunidade de rebanho, num jogo macabro: investir na cloroquina ao invés das vacinas, colocando a vida a prêmio.

Tomadas de decisões tão irresponsáveis e disparatadas têm merecido julgamento em cortes internacionais. Os precedentes na história se alinham com crimes de guerra e genocídios, e o tribunal de Haia é a instituição acionada nesses casos. O presidente brasileiro já é objeto de pedidos de análise de crimes e foi recentemente alertado pelo primeiro-ministro de Israel para os riscos de um processo em Haia.

Como muitos apostadores só jogam por dinheiro, não poderia faltar o vil metal na história brasileira. E nesse jogo macabro começam a surgir, via CPI da pandemia, as denúncias dos valores envolvidos nas apostas do governo federal. Neste jogo, o vencedor são alguns espertos de empresas e de infiltrados no setor público. E o perdedor é conhecido mesmo antes do resultado ser anunciado: a população em geral.

Estamos vivendo a dura experiência de um presidente que resolveu fazer do ato de governar um jogo, alheio a todas as recomendações da ciência, apostando no tudo ou nada da imunização coletiva: não comprou vacinas, desestimulou o uso de máscaras e o isolamento, e não coordenou ações no país.

Só que, diferentemente dos riscos dos jogos que acarretam perdas materiais a quem aposta na loteria, nesse jogo paga-se com vidas: no Brasil, a grande maioria das mais de 525 mil que perdemos e que seriam mortes evitáveis (quatro em cada cinco, segundo o epidemiologista Pedro Hallal, da UFPEL). Mais do que um jogo, fomos submetidos a uma roleta russa por nosso governante maior, num pesadelo sem fim.

Os riscos para a democracia é que ela não está sendo capaz de entregar uma vida melhor para as pessoas. Os interesses pessoais e privados se sobrepõem ao interesse público e impedem projetos que beneficiam o coletivo numa espiral que alimenta aventureiros de plantão.

As eleições que estão por vir não podem ser tratadas como um jogo binário, mas como a possibilidade de início de superação de um momento de trevas. Nela depositamos o futuro. Frente a tamanha responsabilidade não cabem apostas e nem lavar as mãos, o que pode até aplacar consciências, mas que muito contribuiu para o momento que vivemos. Os 31% (quase um terço do eleitorado) de abstenções, votos nulos e em branco em 2018 muito contribuíram para definir as eleições e estamos pagando caro por isso. Resta a esperança do aprendizado e do amadurecimento político a cada eleição.

Diante das trevas não há espaço para dúvida.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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