A importância das lideranças em momentos de crise: dez dias que sinalizam mudanças

Nos últimos dias, acontecimentos importantes têm potencial de mudança que vão além dos locais onde ocorreram

Vivemos um momento dramático frente à pandemia. Sobram exemplos de má conduta que aumentam a descrença na política e evidenciam a limitação de lideranças nacionais e locais. Mas há fatos que merecem ser ressaltados pelo seu potencial de transformação. O mundo está em uma encalacrada.

A pandemia, em um contexto de indecente concentração de renda e depredação da natureza, evidencia o risco sanitário, social e ambiental em que nos encontramos. Ganha força a ideia de que é preciso mudar. A mudança é complexa e depende do envolvimento de muitos segmentos da sociedade. Nesse processo, as lideranças exercem um papel fundamental, e muitas delas estão decidindo correr riscos e deixar marcas. Na última semana ocorreram alguns exemplos importantes e inspiradores.

Joe Biden, 78, presidente dos Estados Unidos, sinalizou que não tentará a reeleição. Com isso, deve jogar todas as fichas em seus quatro anos de gestão, evidenciando que há limites para o sentido utilitário da vida e que há coisas mais interessantes a fazer do que ser novamente presidente aos 83 anos. Dá a impressão de querer deixar sua marca na história.

Esse desprendimento pode levar a uma gestão ambiciosa e seus atos, até o momento, confirmam esta suposição. O mais recente, a Cúpula do Clima por ele convocada, reafirmou a importância da agenda climática e reiterou compromissos das principais nações do mundo com a redução de emissões.

Os EUA anunciaram a redução das emissões à metade até 2030 e a neutralidade até 2050, sua contribuição para evitar que o aquecimento global alcance dois graus célsius neste século, meta máxima do Acordo de Paris. A mensagem é a de que é preciso fazer algo desde agora. A crise climática tem enorme impacto, seus efeitos serão ainda maiores do que a pandemia e não haverá vacina para neutralizá-la. É resultado de um desequilíbrio estruturante e envolve sistemas complexos de difícil reversão, daí a importância e urgência das ações. Esta foi a mensagem reforçada na cúpula do clima.

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, lembrou, na Cúpula do Clima, a responsabilidade do setor financeiro como grande financiador da agenda climática. Cabe a este setor protagonizar mudanças e criar condicionantes socioambientais para investimentos.

Nesse final de semana, em Auckland, houve um show da banda neozelandesa Six60 com 50 mil participantes que só foi possível graças ao sucesso das rigorosas medidas de isolamento, lockdown e vacinação adotadas pelo governo contra a pandemia. Na Nova Zelândia, país de 5 milhões de habitantes, morreram até agora 26 pessoas devido a Covid-19. Lá ocorrem 0,5 mortes por 100 mil habitantes, enquanto no Brasil há 180 mortes por 100 mil. Temos 360 vezes mais mortes no Brasil do que na Nova Zelândia. Essa é uma das diferenças que uma boa gestão da pandemia pode provocar: reduzir o número de mortes e de sofrimento coletivo.

A agenda ambiental ganha relevância e, na Alemanha, Annalena Baerbock, do Partido Verde, surge nas pesquisas como favorita à chanceler do maior país da Europa. Ainda temos muito tempo até as eleições, mas a sinalização de mudança é consistente em um país que teve Angela Merkel, da União Democrata-Cristã, no poder nos últimos 16 anos.

Pouco antes da cúpula, Biden propôs e conseguiu aprovar um pacote trilionário para dar suporte às pessoas menos favorecidas e estimular a economia, em uma inesperada guinada que valoriza o papel do estado em um país acostumado a reduzi-lo. Há menos de quatro meses os EUA vivia o pesadelo Trump. As coisas mudam!

Ainda nos EUA, o juiz Peter Cahill proferiu uma sentença histórica que condena o policial que matou George Floyd, um marco no enfrentamento ao racismo, com impacto que vai muito além do país. A mensagem é a de que há limites para a violência policial, e a justiça norte americana muda o tratamento aos negros. No Brasil, na mesma semana, foram divulgados dados de que 78% dos mortos pelas polícias (civil e militar) estaduais em 2020 são negros, o que reafirma o racismo estrutural de nossa sociedade. Se por lá as coisas estão mudando, por aqui ainda não.

Em relação à pandemia, senadores e prêmios Nobel assinaram carta a Biden propondo a quebra de patente das vacinas contra a Covid-19. O tom da proposta não é o de desrespeito à indústria farmacêutica, mas lembrar que, em momentos de crise sanitária, a defesa do interesse comum está acima do privado.

Já o reconhecimento do genocídio do povo armênio por Biden faz justiça depois de mais de um século. Mesmo que esse fato não reduza o sofrimento secular do povo armênio, cumpre um papel de justiça histórica e pode inibir atos futuros. Daqui tiramos que a história pode demorar, mas cobra os responsáveis por atos que impactam negativamente seus países.

No Brasil, no julgamento da suspeição do juiz Sérgio Moro, Ricardo Lewandowski lembrou que a história vai cobrar dos membros do STF as manobras e decisões equivocadas que tiveram influência direta nas eleições presidenciais de 2018 e levaram o país à lamentável situação atual, com um quadro de degradação social, econômica, política e ambiental.

Por aqui, o tempo da reparação histórica na justiça do país foi de três anos.

É raríssimo um juiz ser considerado suspeito e a decisão recompõe o papel da justiça e o Estado de Direito no país. Na realidade, tem a ver com todos nós, na medida em que reafirma aos brasileiros o direito a um julgamento justo e imparcial. A decisão do STF altera o cenário político, abre perspectiva de mudança nas eleições de 2022. Se não ainda não conseguimos vislumbrar uma solução de curto prazo para o país, surgem, pelo menos, perspectivas de médio prazo.

Outro fato que evidenciou o protagonismo do Judiciário —diante de um Legislativo apático e subserviente ao governo—, foi a decisão do STF que obriga a instalação da CPI da pandemia, que poderá apurar as razões e responsáveis pela crise sanitária brasileira ter provocado a morte de mais de 395 mil brasileiros, a maioria delas evitáveis.

Há pouquíssimo tempo, muitos desses fatos eram impensáveis, mas lideranças têm se exposto ao risco e operado mudanças, inspirando outros. Em que pese as dificuldades que vivemos, é possível imaginar a superação desse momento em um prazo relativamente curto. As lições destes dez dias mostram que não é uma ilusão e permitem mantermos esta expectativa. As coisas podem mudar.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis

Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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