Mais do que nunca precisamos de uma Quarta-Feira de Cinzas

Após o fim de um período de êxtase, é hora de repensar nosso modelo de desenvolvimento predador para pessoas e natureza

Se a Quarta-Feira de Cinzas, além do seu significado religioso, marca o fim de um período de êxtase do Carnaval, ela pode também nos remeter à necessidade de finalizar um período de entusiasmo irresponsável desse nosso modelo de desenvolvimento predador para pessoas e natureza.

Mais do que nunca precisamos do espírito da Quarta-Feira de Cinzas, o final de um período marcado pela falta de limites. Tanto um como o outro são momentos de mudança. Deixarmos nossas fantasias ou mudar nossos hábitos é cada vez mais necessário.

Na desequilibrada dedicação à tecnologia e às redes digitais nem percebemos que nossa atenção é sequestrada para o consumo ou para a desinformação, deixando de lado o que é essência na vida.

A Quarta-Feira de Cinzas de que necessitamos, marcando o final de um ciclo, pode significar também uma parada estratégica para redirecionar energias e inverter prioridades. Temos dedicado muita energia para as inovações que nos deslumbram e pouca para a compreensão dos impactos que elas ocasionam, transformando-nos em seres tecnologicamente modernos, mas emocionalmente imaturos, desperdiçando o potencial único que temos.

A proposta do modelo vigente é a de permanecermos em um eterno jogo que nos iluda na busca do sucesso e da glória. As cinzas desta quarta-feira de que necessitamos são o produto da queima de seduções que tanto nos mobilizam, geram impactos em nossas vidas e nos colocam em risco ambiental e social. Nesse sentido, não temos percebido as cinzas das florestas e da biodiversidade, fruto de uma corrida insana e sem limites pela produção e pelo consumo. Para atender demandas criadas por complexas estratégias de marketing consumimos a terra que nos sustenta, sem perceber que o céu pode cair, como alerta David Kopenawa.

É necessária a prioridade no enfrentamento das questões climáticas, na redução de emissões, produção de resíduos e poluição que produzimos para atender a fome de consumo de produtos que prometem nos entregar uma efêmera felicidade. O estranho é que toda esta estratégia alcança no máximo um quarto da população, o segmento mais rico. Estamos em risco para saciar os desejos de uma minoria de pessoas.

Cabe aos governos e a cada um de nós reduzir as desigualdades e enfrentar o aquecimento global por meio de ações de defesa das florestas, da biodiversidade e dos povos que delas cuidam — indígenas, quilombolas e povos ribeirinhos. É urgente perceber que as questões climáticas e as desigualdades estão relacionadas, alimentando-se em um círculo vicioso.

O desmatamento, motivado pelo consumo de produtos que pressionam as fronteiras de nossos biomas, de carne, madeira, soja e de manufaturados baseados no extrativismo, retorna para a população em forma de inundações, secas, falta de água e furacões. Esses impactos, por sua vez, provocam mais desigualdades, já que os mais afetados são justamente os mais vulneráveis. Além dos problemas estruturais, o preço dos produtos costuma aumentar, penalizando os mais pobres.

A posição social, portanto, passa a ser um indicador de quem pode ou não superar a crise e, claro, quem escapará em um primeiro momento dos efeitos do aquecimento global. Mas não para sempre, é importante lembrar, pois na sequência seus efeitos alcançarão todos, inevitavelmente.

Diante da inação dos governos frente à agenda climática, acaba de ocorrer uma importante inovação na França. O chamado processo do século, movido por entidades da sociedade civil como Notre Affaire à Tous, Greenpeace, Oxfam e Fundação Nicolas Hulot acaba de ser julgado.

Após obterem, em tempo recorde, 2 milhões de assinaturas, as entidades entraram na Justiça contra o governo francês, alegando que as medidas adotadas entre 2015 e 2018 são insuficientes para alcançar os compromissos assumidos no Acordo de Paris, como a redução de 40% das emissões até 2030 (base 1990) e sua neutralização até 2050.

A Justiça deu ganho de causa às organizações e pela primeira vez reconheceu a culpa do governo francês por sua incapacidade de atender aos compromissos assumidos. O resultado é histórico por definir, pela primeira vez, a responsabilidade do Estado na crise climática, por considerar a inação do governo ilegal e, além disso, reconhecer que a não ação causa prejuízo ecológico. A sentença cria jurisprudência e referência, estimulando ações contra governos que não cumprem compromissos assumidos em temas relevantes e que atingem futuras gerações.

A Quarta-Feira de Cinzas de que precisamos representaria o fim de um ciclo e início de uma era em que as questões socioambientais estão no centro das tomadas de decisão. Por isso seria bem-vinda e transformadora, deixando para trás momentos não de êxtase, como no caso do Carnaval, mas de insanidade dos que não pensam nas consequências e no impacto de nosso modo de viver.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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