São Paulo, 467 anos: uma biografia não autorizada da cidade

Pesquisa Viver em São Paulo, da Rede Nossa São Paulo e do Ibope, mostra que 78% dos paulistanos têm orgulho de morar na cidade

São Paulo é idosa se comparada às suas irmãs latino-americanas, mas jovem em relação às suas congêneres asiáticas e europeias. Há um quê de inovador, provocador e revolucionário na São Paulo aparente. E uma inequívoca bipolaridade. O coração bomba oportunidades, encontros, diversidade, enquanto a mente se angustia com a desigualdade, a violência e a exclusão.

Tais desafios merecem um olhar a partir de diferentes perspectivas. À gestão pública cabe, seguramente, a responsabilidade por programas e políticas. Mas é muito importante escutar, sobretudo em um contexto de pandemia como este que enfrentamos, a percepção de quem vive na cidade. E a pesquisa Viver em São Paulo: Qualidade de Vida, realizada pelo Ibope Inteligência e pela Rede Nossa São Paulo desde 2008 e lançada hoje, oferece dados e pistas relevantes.

Aumentou muito o número de paulistanos que dizem que sua vida piorou em 2020 (de 28% para 43%). Efeitos individuais e coletivos da pandemia podem explicar? A maioria diz ter orgulho de morar em São Paulo (78%), o que não é pouca coisa, é um grande ativo da cidade e mereceria mais atenção dos gestores públicos. Como, a partir deste orgulho revelado, gerar pertencimento, inclusão e processos de participação?

Por outro lado, seis em cada dez deixariam a cidade se pudessem —número que vem se mantendo estável desde a primeira edição da pesquisa. A princípio, os dados podem parecer contraditórios, mas, na realidade, não são. A ciclotimia de uma cidade diversa e que oferece oportunidades de trabalho, culturais, de encontros e de relações, se confronta com a violência, a enorme desigualdade social, o trânsito e a poluição, e explica o que poderia ser um aparente paradoxo.

Em síntese: a qualidade de vida não está boa; a cidade oferece vantagens, mas paga-se um preço elevado por isso; e, se fosse possível, a maioria das pessoas mudaria para outro lugar.

O sentimento positivo mais relatado na pesquisa foi o de esperança (21%), o que é um alento em tempos difíceis como o que vivemos. O sentimento negativo é o de decepção (12%). É provável que, ao materializar a esperança com ações concretas, possamos combater a decepção.

As grandes demandas da população são conhecidas e estão vinculadas a oportunidades de trabalho, oferta de serviços de qualidade como saúde, educação, transporte e redução da violência, temas que merecem um olhar prioritário sobretudo para a população mais vulnerável.

Os números apontam que caiu o sentimento de inclusão na comunidade (de 42% para 35%). A pandemia e as restrições por ela imposta podem ter contribuído para isso, na medida em que boa parte das pessoas se recolheram ou reduziram suas interações com o bairro e espaços públicos. Mas é importante nos mantermos atentos, pois a partir do pertencimento é que podemos ter mais sucesso com ações colaborativas.

Na avaliação da confiança nas instituições o Metrô segue liderando, com 70% das respostas. Na outra ponta, a Câmara de Vereadores é a instituição que tem a menor confiança da população, com somente 22%.

A Prefeitura conta com a confiança de aproximadamente um terço da população (31%). Já o Poder Judiciário perdeu muita confiança e hoje tem 33% —em 2008, há doze anos, tinha 44% de confiança. Questões que merecem enorme atenção dos políticos e do Judiciário, já que a qualidade da democracia está relacionada a esses temas. Que mensagens podemos tirar deste baixo grau de confiança? Que ações podem ser feitas para reverter este quadro? Temas como transparência, participação e equidade devem ser considerados por essas instituições.

A Igreja é a instituição que mais contribui para a melhoria da qualidade de vida da população (25%), seguida pelas ONGs (19%), pelas universidades (17%) —que tiveram o maior aumento—, e pelos meios de comunicação (16%).

A pesquisa ainda revela um dado importante sobre o controle social: a maioria (58%) dos paulistanos não tem vontade alguma de participar da vida política. E os que participam entendem que a melhor forma é por meio da assinatura de petições e abaixo-assinados (26%), e compartilhamento de notícias nas redes sociais (16%).

Por fim, entendem que as principais características dos prefeitos e vereadores é conhecer bem os problemas da cidade, ter visão de futuro e ser trabalhador.

Aos 467 anos, São Paulo já deveria ter amadurecido e se sensibilizado com as carências de seus moradores. Segue de costas para a maioria da população, mas será justamente a participação desta população e a inversão de prioridades dos gestores públicos que poderá dar velocidade às transformações que, nesses séculos, não se consolidaram.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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