A pandemia do racismo pode ser amenizada pela diversidade no legislativo municipal

Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que 2/3 da população paulistana acredita haver tratamento diferenciado entre negros e brancos em serviços de saúde

O momento que vivemos —em que o racismo e a violência contra as mulheres ganham espaços de debate na agenda pública a partir, infelizmente, de eventos dramáticos— estimula a uma análise dos resultados das eleições para os legislativos municipais sob a ótica da diversidade e da representatividade.

Dois grandes especialistas no assunto, a filósofa Djamila Ribeiro e o advogado Silvio Almeida falam em racismo estrutural, abordam a importância e complexidade do tema e, ao mesmo tempo, transmitem a urgência de enfrentar este que é um dos maiores problemas do Brasil.

Tal complexidade se dá justamente por ser um elemento que atravessa diferentes aspectos de nossa vida cotidiana. A Rede Nossa São Paulo acaba de lançar uma pesquisa que mostra que dois terços da população paulistana acredita haver tratamento diferenciado entre pessoas negras e pessoas brancas em hospitais e postos de saúde. Esse percentual alcança 81% quando perguntados sobre o tratamento em shoppings e no comércio em geral.

Sabe-se que, no Brasil, 75% das pessoas mortas pela polícia são negras, o que evidencia a dimensão do racismo institucional existente no país. Além disso, três quartos dos paulistanos acreditam que a população negra tem menos oportunidades no mercado de trabalho.

Estamos diante, portanto, daqueles problemas complexos, que dependem de muitas variáveis para serem resolvidos. Mas a política pode e deve ser um componente importante dentro do conjunto de medidas de enfrentamento ao racismo. O resultado das eleições municipais pode dar pistas do estágio que estamos na luta contra esta verdadeira pandemia de longa duração.

Uma das questões fundamentais para isso é o aumento da representação da população negra na política. A ocupação de cargos nas câmaras em proporção próxima à da população negra na sociedade é um indicador importante. Neste ano, se todas as câmaras de vereadores fossem reunidas em uma só, teríamos 44,7% de vereadores pretos ou pardos. Longe, portanto, dos 56,1% da população brasileira que se declaram como tal.

O baixo crescimento de representantes negros eleitos em relação às últimas eleições foi desproporcional à importância que o tema tem na sociedade. A política permanece andando atrasada em relação aos grandes desafios que enfrentamos. Outro exemplo da transversalidade do tema é o enfrentamento ao aquecimento global, que atinge mais as populações mais vulneráveis do ponto de vista socioeconômico. No Brasil, a população negra é predominante nas áreas de maior vulnerabilidade, e o combate a esses fenômenos está muito aquém dos desafios.

Não há porque desanimar, entretanto. O resultado das eleições mostra que vivemos um momento de transição se compararmos com as eleições de 2018. Há uma bancada de parlamentares cada vez mais consciente de que combater o racismo é uma das prioridades em nosso país. E, se não podemos dizer que houve um resultado numérico à altura das necessidades e expectativas, vale afirmar que ganhamos qualidade, dada a maior representatividade.

É sempre bom lembrar que o encaminhamento de soluções dependerá não somente da política, mas também de uma sociedade atuante, alerta, participativa, propositiva e demandante. E, nesse quesito, estamos em grau elevado no Brasil.

O resultado das eleições evidenciou a derrota da extrema direita e de seu projeto de ataque à democracia e às instituições. Nesse contexto, e com a viva atuação da sociedade civil, estamos autorizados a sonhar com dias melhores no sentido de encarar desafios estruturantes como o racismo, em uma tarefa na qual estamos atrasados no mínimo em 130 anos, desde a abolição oficial da escravidão.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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