Um ano a menos de vida por quilômetro percorrido

Esse é o preço do pedágio da desigualdade entre o Jardim Paulista e o Jardim Ângela, em São Paulo

A idade média ao morrer no Jardim Paulista, distrito rico da cidade de São Paulo, é de 81 anos. Em outro Jardim, o Ângela, distrito pobre, é de 58 anos. Uma diferença de 23 anos na mesma cidade, a mais rica da América Latina. Como é possível tamanha desigualdade?

A distância entre os dois distritos é de aproximadamente 23 km, e leva cerca de 1h30 para ser percorrida de ônibus. Muito além do tempo gasto nesse trajeto, o que chama atenção é a mudança de paisagem que parte de um ambiente com toda a infraestrutura urbana e vai se degradando paulatinamente até chegar ao destino final com uma precária infraestrutura.

O indicador “idade média ao morrer” traduz, como nenhum outro, a desigualdade estruturante da cidade. Não por acaso, não por fatalidade, os moradores do Jardim Ângela vivem menos. Lá, o acesso à saude é difícil, as habitações são precárias, o acesso à água e ao esgoto ainda são um problema, a mortalidade infantil é mais elevada e o homicídio de jovens, sobretudo negros, é mais alto.

Esses e outras dezenas de indicadores compõem o Mapa da Desigualdade 2020 da cidade de São Paulo, que está sendo lançado nesta quinta-feira (29) pela Rede Nossa São Paulo. Elaborado anualmente desde 2012, o Mapa apresenta indicadores dos 96 distritos da capital paulista, compara os dados e revela a distância socioeconômica entre as regiões com os melhores e os piores indicadores.

Durante a pandemia, observamos que justamente nos distritos que apresentam menor idade média ao morrer, habitação precária e renda mais baixa, ocorreram mais mortes. Há, portanto, uma clara relação entre as desigualdades e o número de mortes pela Covid-19.

Diante deste aprendizado e considerando o contexto eleitoral, surge uma oportunidade de propostas de enfrentamento da desigualdade. Imagine que um(a) candidato(a) se proponha a, durante sua gestão, reduzir pela metade a atual diferença da idade média ao morrer. Isso significaria que, em quatro anos, no fim de 2024, a diferença seria de 11,5 anos —e não mais de 23 anos— entre o melhor e o pior distrito.

Tal proposta implica a construção de um pacto da sociedade que compreenda a importância de uma maior equidade nos ambientes da cidade. E, a partir daí, um conjunto de investimentos que integre ações em diferentes campos: a melhoria do atendimento à saúde e à educação de qualidade; a melhoria das condições de habitação, de acesso perene à água e ao esgotamento sanitário; a redução da mortalidade infantil; a redução do homicídio de jovens, sobretudo negros, que implicaria uma outra visão do papel das polícias. Múltiplas ações integradas com um objetivo claro: permitir uma maior equidade no tempo de vida da população. O que pode ser mais ambicioso que isso?

Depois disso, poderíamos ter a meta de, na próxima gestão (2025-28), dar continuidade às políticas e reduzir a diferença de novo à metade (para 5,5 anos), podendo chegar em 2030 com uma diferença residual, quase natural, que não nos envergonhe como a atual. Em síntese, resolver nos próximos dez anos o que não conseguimos nos últimos cem anos.

No fundo, esse indicador só atesta nossa incapacidade de resolver problemas básicos da sociedade que colocam a vida e o bem-estar de todos em risco, principalmente dos mais vulneráveis. Quem pode ir contra uma agenda que busca a dignidade de vida de todos?

É importante ressaltar que reduzir a desigualdade não significa mimetizar os distritos. Cada um tem suas peculiaridades e riquezas, e devem ser respeitados. O Jardim Ângela não tem que se transformar no Jardim Paulista. Sob alguns aspectos, ele é mais rico que o Jardim Paulista. Não materialmente, mas a diversidade é muito maior, o que permite um outro grau de compartilhamentos e encontros; a cultura é mais efervescente: slams, dança, rap, hiphop… Aprender a reconhecer e valorizar as diferenças é importante nesse processo.

A desigualdade não pode ser naturalizada. Ela é resultado de políticas públicas que deixam a população em um grau de vulnerabilidade insuportável. E, até por isso, por ter sido construída por nós, pode ser fruto de políticas que reparem os erros cometidos na busca de uma cidade mais equilibrada e menos desigual, o que deve ser interesse de todos os segmentos da sociedade.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Texto publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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