Os 60 dias que desenharão nosso futuro começam hoje

Em que pese o baixo nível do debate presidencial de ontem à noite entre Donald Trump e Joe Biden, incapazes de aprofundar um palmo assuntos como a pandemia, o sistema de saúde, a recuperação econômica ou a violência racial, as eleições nos EUA ainda têm enorme influência nos destinos do mundo. A pobreza dos argumentos de ambos, a superficialidade das abordagens e a falta de respeito de Trump com o seu oponente são uma afronta ao bom senso e não estão à altura da maior potência do mundo.

Temas centrais como a paz no mundo, o aprimoramento da democracia, o enfrentamento ao aquecimento global, a luta contra a desinformação nas redes sociais, a redução das desigualdades e o multilateralismo, terão tratamentos diferentes dependendo do vencedor.

A eventual vitória de Trump poderá consolidar um retrocesso em programas e políticas que levaram décadas para serem conquistados.

Por isso, o resultado das eleições nos EUA tem enorme impacto na vida de grande parte dos cidadãos, em diferentes lugares do mundo. E, mesmo que esses impactos não sejam percebidos no cotidiano, eles dizem muito sobre as políticas que desenham as sociedades que vivemos. Países aliados aos EUA nele se inspiram e o resultado das eleições poderá alterar, sim, o equilíbrio de forças internacional. O Brasil será um dos países fortemente influenciados pelo resultado das eleições americanas e esse impacto atravessa questões econômicas, sociais, ambientais e chega à política externa.

Com o sofrimento coletivo vivenciado na pandemia, aprendemos que a política foi decisiva e suas decisões tiveram relação direta com o número de casos e mortes nos países.

É nas cidades que estão impressas as marcas mais profundas da pandemia e será nelas que construiremos a superação deste momento. Daí a importância das eleições municipais deste ano no Brasil. Uma vez que todos compartilhamos e ainda estamos sob o estado de choque provocado pela pandemia, poderemos exigir dos candidatos propostas que dialoguem com problemas nela evidenciados. Convido então, a pensarmos juntos, eleitores e candidatos, sobre algumas questões que poderão nos guiar nesse processo:

Que propostas têm os candidatos para a saúde nas cidades? Como poderão gerar mais segurança neste tema que foi o centro de nossas atenções? Que soluções para uma educação pública de qualidade, que reduza o fosso que impede desde cedo que a grande maioria das crianças e jovens mais pobres tenham as mesmas oportunidades na sociedade?

E a questão da sobrevivência econômica e a capacidade das cidades assumirem a responsabilidade por uma renda básica, como já acontece em alguns municípios do Brasil? Como reduzir a desigualdade no acesso a serviços públicos, sobretudo para a população mais vulnerável e garantir o acesso água e esgotamento sanitário que, em muito locais, não permitiu que os padrões de higiene exigidos fossem praticados? Quais suas propostas para a mobilidade, considerando as restrições impostas pela crise sanitária? Como reduzirão a poluição nas cidades, já que as doenças respiratórias agravaram os problemas de quem foi contaminado pela covid-19?

Como os candidatos pretendem investir o orçamento da cidade, privilegiando os locais mais desiguais e mostrando como está distribuído em cada distrito da cidade? Como vão estimular a participação da sociedade na formulação de programas e políticas? Que propostas têm para combater o racismo estruturante de nossa sociedade? Estarão dispostos a inverter as prioridades e dizer “não” para alguns poucos, para que muitos possam ser atendidos e caminhemos na direção de uma cidade socialmente mais equilibrada?

Além destes e outros tantos temas, não podemos deixar de analisar o comportamento dos candidatos. Não é mais possível aceitarmos que postulantes a cargos públicos, sejam de que partido for, se recusem a debater. Como eleitores, temos que conhecer as propostas e as argumentações dos candidatos, verificar sua capacidade de se relacionar, de respeitar, de reagir à adversidade e de tolerar. Só o encontro – mesmo que virtual – nos permite avaliar as pessoas, e todo eleitor tem sensibilidade para criar empatia e fazer sua avaliação. Não menos importante será identificar os que se utilizam da desinformação nas redes sociais, iludindo e tentando manipular as pessoas.

Se estes 60 dias serão chave para o futuro próximo, as eleições nos EUA e nos municípios brasileiros têm um encontro marcado para daqui a dois anos, em novembro de 2022. A costura destes eventos poderá dar origem a uma bandeira branca, que retome a ideia de uma cultura de paz. Ou, dependendo do resultado, a uma camisa de força, que oprima ainda mais a população.

Serão tensos estes 60 dias, mas há chances de que as nuvens que se colocam no horizonte comecem a se dissipar. Depende de nós.

Jorge Abrahão – Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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