Pandemia, mudança climática e eleições municipais: relação a ser considerada por eleitores

No Brasil, a relação entre a pandemia e o ambiente ainda não foi reconhecida como deveria

Cada vez mais cresce a conscientização de que há uma relação entre a pandemia e a crise ambiental. Que o modelo de desenvolvimento, de produção e consumo, ao gerar um enorme impacto no meio ambiente —por meio, por exemplo, do desmatamento e da exploração descontrolada da biodiversidade—, gera desequilíbrios que facilitam o surgimento de epidemias e pandemias.

Por isso, na mais recente eleição municipal na Europa, a da França, o tema ambiental foi decisivo e os candidatos que deram centralidade a ele foram vencedores nas principais cidades como Paris, Marselha, Lyon e Bordeaux. Foi justamente nas cidades grandes que os maiores impactos da pandemia foram experimentados, uma vez que nelas os confinamentos foram mais severos, provocando uma maior clareza sobre a relação entre a exploração dos recursos naturais e a crise do novo coronavírus. Não ocorreu o mesmo nas cidades menores, o que pode explicar a razão pela qual nelas os partidos que venceram nos grandes centros não obtiveram o mesmo resultado.

Com a Covid-19 houve uma mudança de paradigma, tornando mais clara a responsabilidade do nível local de organização do poder e a necessidade de criar centros urbanos com maior grau de autossuficiência. O debate político transita do discurso sobre o estado menor —que prega menos investimentos em serviços públicos como saúde, ciência e educação— para uma valorização do estado de bem-estar social assim como da importância da ação local. Foi nesse contexto que projetos com bandeiras ecológicas encontraram eco.

As propostas nestas cidades contemplaram diversos temas. Em Paris, a cidade de 15 minutos propõe que a população consiga acessar em 15 minutos de distância a pé ou de bicicleta de sua casa todos os serviços de necessidade básica como saúde, educação, parques, serviços gerais e oportunidades de trabalho. Em Marselha, a coalizão ecológica chamada “Printemps Marseillais” defendeu em seu programa “Ecologia, Agricultura Urbana, Alimentação e Bens Comuns”, um projeto de cidade no qual a agricultura urbana seria uma oportunidade de emprego e também a principal provedora de alimentos para a população local.

Em seu mais recente livro “Onde Aterrar: como se orientar politicamente no Antropoceno”, Bruno Latour, antropólogo, sociólogo e filósofo francês, argumenta que a política é a relação que se constrói entre terra e pessoas. Latour convida os seus leitores a repensarem o conceito de território, uma vez que esse não se limita mais às fronteiras nacionais. A globalização fez com que nós cada vez mais dependamos de recursos de outros territórios, tanto os naturais como do trabalho de outras populações. De acordo com Latour, nós devemos re-apropriar o conceito de natureza e entender que somos parte dessa.

A mudança climática também traz à tona as nossas desigualdades sociais, já que os privilégios socioeconômicos permitem que uma elite se ausente ou se relacione com os impactos dos eventos climáticos de forma diferente do que os mais pobres. As dependências em torno do território se organizam de diferentes formas: aqueles que possuem recursos para viajar, consumir produtos como ar-condicionado ou alimentos de qualidade estão dando respostas individuais a um problema coletivo. Assim, os menos privilegiados são os mais dependentes dos territórios no nível local e, por isso, serão as maiores vítimas desse processo. Daí a importância da política e, no curto prazo, das eleições municipais.

No Brasil, a relação entre a pandemia e meio ambiente ainda não foi reconhecida como deveria. Na pandemia, foi justamente nos territórios mais vulneráveis (onde há mais favela, menos saneamento básico e menos leitos) que ocorreram mais mortes. De acordo com a edição especial do Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, no auge da pandemia os distritos com menor renda média familiar mensal registraram 2,7 vezes mais óbitos por Covid-19 do que os distritos que concentram mais renda.

Outro dado que ganhou destaque nesse levantamento: os dois distritos com maior idade média ao morrer registravam, em junho, um número baixo de óbitos por Covid-19: Moema (81 anos) e Jardim Paulista (80 anos), com 130 dos falecimentos. Enquanto isso, dos três distritos com menor idade média ao morrer, dois mantinham número alto de falecimentos pela doença: Grajaú (59 anos) e Cidade Tiradentes (57 anos), com 460 mortes —isso significa 3,5 vezes mais óbitos que os dois distritos com maior idade média ao morrer. Por aqui, lamentavelmente, a raça e o CEP foram determinantes no número de mortes.

Nas eleições municipais, a relação da pandemia com o meio ambiente, como ocorreu na França, deverá ser tratada. Até porque a ligação com nossas vidas é diária e permanente.

É só pensarmos no esgoto que polui os rios, nos resíduos que poluem as terras, rios e mares, na poluição dos carros e dos ônibus que provocam doenças respiratórias e acentuam a produção de CO2, no exagerado uso que fazemos de plástico, no trajeto e qualidade de nossa alimentação, na ausência de áreas verdes, parques e praças, e, por fim, na necessidade de mobilidade ativa com calçadas de qualidade e ciclovias.

Chama a atenção como as cidades e o modo de vida moderno fazem com que não nos sintamos parte da natureza, como se fosse algo externo e alheio à nossa vida. Se a política é a relação entre a terra e as pessoas, nós devemos abraçá-la urgentemente. Não dá para cuidar das pessoas sem cuidar da terra e, se não cuidamos da terra, não haverá solução para nossos problemas. Será importante verificar de que maneira os candidatos estão relacionando os temas e compreendendo a natureza como centro de um projeto de cidade. No fundo, somos todos natureza e dela dependemos. O desafio é a política incorporar esse conceito e os eleitores fazerem dele fator decisivo de sua escolha.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

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