Crianças inspirando o desenho das cidades

Se uma cidade conseguir oferecer qualidade de vida às suas crianças também o fará para toda sua população

Imagine-se com 95 cm de altura. Mais do que isso: com a visão e os sonhos de uma criança de três anos. Como deveria ser a cidade para essas crianças? Como atender às suas necessidades e expectativas? Pois esse é o objetivo de um projeto que reúne uma rede de cidades no Brasil lançado na terça (7) pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Fundação Bernard Van Leer: o Urban95. A ideia é mostrar que se uma cidade conseguir oferecer qualidade de vida às suas crianças também o fará para toda a população. Além disso, a rede aponta para a integração das políticas públicas e para a transversalidade da pauta da primeira infância. “É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança”, diz o provérbio africano.

A partir de agora, 14 cidades do Brasil assumem o compromisso de colocar a primeira infância como centro de criação de políticas públicas. De todas as regiões, com paridade de gênero na gestão pública, grandes e pequenas, litorâneas e amazonenses, do Sul e do Norte. Uma rede rara de cidades no mundo que ambiciona gerar referência para outras tantas ao atender à maior riqueza da sociedade: crianças em fase de formação.

Para enfrentar as desigualdades estruturantes de nossas cidades e país, poucos temas têm a importância da primeira infância. Cuidar dela é o primeiro grande passo para a qualidade de vida das gerações futuras. Ela é indutora da redução das desigualdades por ter impacto em várias dimensões da sociedade.

Justamente por ser o mais importante momento de nossa formação, tem enorme impacto no futuro. O cuidado com os afetos, sensibilidades, condições materiais e espaços públicos é chave para o desenvolvimento das crianças. Como criar o ambiente propício para o desabrochar de todo potencial que cada um de nós carrega nessa fase da vida?

Talvez não haja aposta mais segura na paz do que o investimento nesta fase da vida. Enfrentar a violência tem a ver com a primeira infância. Muitas chagas da sociedade têm seu berço neste momento da vida, muitas histórias de afirmação e autoconfiança também surgem dali. O projeto foi desenhado para contribuir com a implementação de programas que cuidem da primeira infância nas cidades e, com isso, apostar em um futuro mais saudável para toda a sociedade.

Teremos eleições municipais neste ano e a construção de políticas públicas que garantam a continuidade desse tema é chave. As cidades podem estar à frente desta agenda e têm uma enorme responsabilidade na condução de pautas estratégicas alinhadas à primeira infância.

Neste sentido, é um cuidado do presente que dialoga com o futuro.

Das 14 cidades envolvidas, 11 ingressaram na Rede Urban95 em 7 de julho: Aracaju (SE), Brasiléia (AC), Campinas (SP), Caruaru (PE), Crato (CE), Fortaleza (CE), Ilhéus (BA), Jundiaí (SP), Niterói (RJ), Pelotas (RS) e Ubiratã (PR). E três outros municípios já vinham desenvolvendo ações pioneiras nessa área.

Em Boa Vista (RR), pontos de ônibus foram transformados em espaços de aprendizado e brincadeira —e o sistema de gestão tem melhorado com alertas de risco que cruzam os dados dos sistemas de educação, saúde e assistência social.

Outra iniciativa exemplar é o Programa Universidade do Bebê que foi descentralizado para todos os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) da cidade. Por meio dele, gestantes, mães e seus familiares têm acesso a profissionais e informações sobre o desenvolvimento psicossocial integral das crianças.

São Paulo (SP), a partir de grande engajamento da sociedade civil e comprometimento da gestão, conseguiu construir o seu Plano Municipal de Primeira Infância, inovador no Brasil, envolvendo diversas secretarias e uma agenda de políticas transversais e integradas. A partir do mapa da desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, foram indicadas as regiões mais vulneráveis para as crianças pequenas, que se constituíram como “territórios educadores” que recebem investimento diferenciado para melhoria dos problemas identificados.

Em Recife (PE), o investimento na primeira infância foi uma estratégia inovadora para combater a criminalidade e a desigualdade nos bairros mais vulneráveis. Além disso, uma equipe administrativa e um comitê diretor intersetorial foram criados para orientar trabalho e desenvolver uma lei municipal pela primeira infância. Em parceria com a ARIES (Agência Recife para Inovação e Estratégia), a capital pernambucana desenvolveu metodologia para testar estratégias de mobilidade e espaços públicos inspiradas na iniciativa Urban95.

Exemplos como estes mostram que as cidades podem, efetivamente, assumir o protagonismo em diversos temas relevantes da sociedade, independente de governos federais. Para isso as lideranças locais são chave. Políticos podem e devem fazer a diferença.

Um dos aprendizados deste difícil momento que vivemos com a pandemia é que a política, para o bem e para o mal, tem sido o principal ator na defesa da vida. Teremos eleições ainda este ano e será o momento de reconhecer, ou não, as lideranças comprometidas com a vida. E o que é mais importante para a vida do que a primeira infância?

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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