O que pensam os paulistanos sobre a pandemia

Há deterioração do apoio aos políticos e a consciência da importância de reduzir as desigualdade

No momento em que a tragédia provocada pelo novo coronavírus dá sinais de arrefecimento na Europa e nos Estados Unidos e o foco se desloca para a América Latina, o Brasil assume, desnecessariamente, o triste posto de centro da pandemia global. Nesse contexto, entender o que pensa a população de São Paulo, a cidade mais rica da América Latina, foi o objetivo da pesquisa lançada ontem pela Rede Nossa São Paulo e o Ibope, o que pode contribuir para ações de curto prazo e o aprimoramento e construção de políticas públicas.

Na medida em que a crise se agrava observa-se a deterioração do apoio aos políticos (especialmente ao presidente e ministros), a consciência da importância de reduzir as desigualdades, a preocupação com o desemprego e a falta que as pessoas sentem do afeto de familiares e amigos, e de frequentar parques e praças. Estes são alguns dos achados da pesquisa:

POLÍTICOS SERÃO RESPONSABILIZADOS PELO AGRAVAMENTO DA CRISE E NÚMERO MORTES

O agravamento da pandemia provoca o aumento na insatisfação da população com os políticos. Todos os políticos —do Executivo e do Legislativo— perderam apoio da população no último mês.

PRESIDENTE PERDE APOIO E ESMAGADORA MAIORIA NÃO CONCORDA COM SUA ATUAÇÃO NA PANDEMIA

Aproximadamente sete em cada dez paulistanos acham inadequadas as medidas tomadas na crise pelo presidente Jair Bolsonaro.

AUMENTA A DESAPROVAÇÃO AO MINISTRO DA ECONOMIA

Com o agravamento da crise econômica, cai de 45% para 36% os que consideram adequadas as medidas adotadas por Paulo Guedes.

EM UM MÊS, DOBRA A INSATISFAÇÃO COM O MINISTRO DA SAÚDE

As constantes mudanças de ministro da Saúde fizeram com que a insatisfação com a atuação da pasta dobrasse. Há 30 dias era o ministério com menor insatisfação. Além disso, 78% pensam que a troca de ministros da saúde prejudica o combate à Covid-19.

GOVERNADOR JOÃO DORIA E PREFEITO BRUNO COVAS PERDEM 25% DE APOIO EM UM MÊS

O aumento da crise e aumento do número de mortes na capital fez com que o apoio a ambos passasse de 68% para 51%.

A SAÚDE DOS FAMILIARES É A PRINCIPAL PREOCUPAÇÃO DAS PESSOAS

Entre os entrevistados, 51% relatam que a saúde dos familiares é sua maior preocupação. Em seguida, o medo é do desemprego, com 16%, que, somado aos 9% que apontam o receio de diminuir a renda, colocam a insegurança com a sobrevivência como a segunda grande preocupação.

AUMENTO DA DESIGUALDADE SOCIAL É A TERCEIRA MAIOR PREOCUPAÇÃO

A desigualdade social ficou ainda mais evidente na pandemia que atinge com maior gravidade a população mais vulnerável. Como preocupação, só perde para os temas de saúde e economia, respectivamente.

MAIORIA DAS PESSOAS (78%) DIZ ESTAR EVITANDO SAIR DE CASA

Logo a seguir, 47% dos entrevistados dizem que estão rezando como forma de contribuir para reduzir os impactos. Ao mesmo tempo, 24% dizem que já está na hora de relaxar o isolamento social pois o pior da pandemia já passou.

VALORIZAÇÃO DOS PRODUTOS LOCAIS E DOS PEQUENOS PRODUTORES

Quase um terço da população, 31%, diz estar adquirindo produtos de pequenos produtores ou locais.

GARANTIR EMPREGO É A MELHOR MANEIRA DE AUMENTAR ISOLAMENTO

A medida é vinculada por quase a metade da população (46%) ao aumento do isolamento.

OFERECER INTERNET É CAMINHO PARA AS PESSOAS NÃO SAÍREM DE CASA

Um quarto da população (26%) relaciona melhor estrutura de acesso à internet em casa à viabilização do isolamento social.

PAULISTANOS SENTEM FALTA DAS RELAÇÕES COM AS PESSOAS

Contato físico com pessoas próximas (44%) e encontrar pessoas sem restrições (43%) são os aspectos que os entrevistados disseram sentir mais falta durante a quarentena.

AUMENTA A VONTADE DE USAR ESPAÇOS PÚBLICOS

Passou de 21% para 28% a vontade de frequentar praças e parques, com ressalva para o desejo de circular pelas ruas da cidade (23%).

VIZINHANÇA BARULHENTA É O QUE MAIS ATRAPALHA AS PESSOAS

As principais dificuldades que os entrevistados têm enfrentado na rotina de casa são a vizinhança barulhenta (26%), seguida de solidão (20%) e conciliar trabalho com atividades domésticas (19%).

PARTE DAS PESSOAS SE ADAPTAM À ROTINA DE CASA

Entre os entrevistados, 25% dizem que não encontram dificuldades por estar em casa na pandemia.

METADE DAS PESSOAS TIVERAM ATENDIMENTO MÉDICO ADIADO

Entre os entrevistados, 49% tiveram o atendimento adiado, cancelado ou recusado durante a pandemia.

PREOCUPAÇÕES: CONVIVÊNCIA COM FAMILIARES E TRATAMENTO MÉDICO

Não conviver com familiares e amigos e não conseguir cuidados médicos aparecem com 44% e 41%, respectivamente, seguidos de perder emprego (34%) e não conseguir emprego (28%).

40% DISPENSOU E PAGA SALÁRIO MENOR PARA EMPREGADA(O) DOMÉSTICA(O)

Já alguns dispensaram e estão pagando o mesmo valor (32%) e 18% dispensaram e não estão pagando. Há um grupo que, mesmo na pandemia, não dispensou (11%).

ESCOLAS, EMPRÉSTIMOS E IMÓVEL

Quase uma em cada cinco pessoas deixou de pagar escola particular, empréstimos e financiamento de imóvel. E quase a metade das pessoas deixou de pagar (24%) ou cancelaram academias ou aulas de atividade física.

POUPAR DINHEIRO É HÁBITO ADQUIRIDO

Poupar mais é o hábito adquirido por mais da metade das pessoas (51%) na pandemia, seguido de hábitos de higienização de produtos adquiridos (47%).

VALORIZAR O COMÉRCIO E PRESTADORES DE SERVIÇOS LOCAIS

É a principal mudança causada pela pandemia em relação ao bairro. Logo a seguir surge a maior atenção aos serviços públicos (30%) disponíveis ou que faltam no bairro. E 15% disseram que ficaram mais interessados em participar das decisões políticas sobre seu bairro.

ANDAR A PÉ E DE BICICLETA

São os meios que que as pessoas pretendem usar mais para se deslocar. Com 38% e 20%, respectivamente, são os que ganharão mais adeptos com a pandemia. Além disso, 70% acham que, após a pandemia, a cidade deve investir mais em sistema de transporte que priorize os deslocamentos de bicicleta e a pé.

DESIGUALDADES

Entre os entrevistados, 87% dizem que a pandemia deixou claro que a cidade precisa investir na redução das desigualdades.

UTIS PARTICULARES

Dos entrevistados, 83% dizem que os leitos de UTI particulares deveriam ser disponibilizados para a população em geral.

POLÍTICA

Entre os que participaram da pesquisa, 81% acham que a polarização política está prejudicando o combate à pandemia.


Lamentavelmente, ainda não chegamos ao pico da pandemia em São Paulo e no Brasil e, mesmo assim, boa parte das cidades insistem em sair do isolamento antes do momento adequado. Assim, não é difícil prever que dias piores virão. Tudo indica que o acúmulo de decisões equivocadas, sobretudo do governo federal, em um país que desdenha de uma desigualdade estruturante, fará do Brasil a nação com o maior número de mortes que poderiam ter sido evitadas no mundo.

A desconsideração pelas vidas perdidas e o sofrimento individual e coletivo vão cobrar um preço elevado dos políticos. Uma só vida perdida de forma brutal nos EUA, a de George Floyd, está provocando uma reação justa e impensável, por lá e no mundo. As vidas perdidas na pandemia e que poderiam ter sido evitadas irão cobrar a responsabilidade dos políticos.

Se não temos no Brasil um vídeo que gerou indignação e mobilização como nos EUA, temos o acúmulo de mortes que evidenciam o descaso do governo com a pandemia e com os mais vulneráveis. E isso fará a diferença.

A nota alentadora da pesquisa —se é que podemos falar dessa maneira em um momento como esse— é que a maioria das respostas dá a sensação de uma tomada de consciência e amadurecimento das pessoas em relação à vida privada e à coletiva, o que pode apontar para mudanças positivas no futuro próximo.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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