Na Europa, idade foi maior fator de risco de morte por Covid-19; no Brasil é o CEP

O endereço como tradução das desigualdades estruturantes da sociedade e das cidades

Saber qual a percepção da população na pandemia é importante tanto para a superação da crise como para medidas de enfrentamento de problemas estruturantes de nossas cidades e país. Na última semana, a Rede Nossa São Paulo e o Ibope Inteligência lançaram uma pesquisa que mostra como a população da capital paulista está percebendo e vivenciando a crise da Covid-19. Além dos dados, dela surgem reflexões que podem ser orientadoras para o futuro.

Saúde

Como não poderia deixar de ser, a saúde apareceu como ponto relevante: o investimento no Sistema Único de Saúde foi a resposta mais votada como prioridade para enfrentar a crise e 63% responderam que, sem ele, a crise seria muito pior. O SUS, que vinha sofrendo retrocessos até fevereiro, surge como elemento central para o enfrentamento da crise. No Brasil, três em cada quatro pessoas dependem do SUS e, portanto, o investimento público em saúde terá que ser prioridade. Mas como isso é possível com as atuais políticas de austeridade econômica?

Renda

É a política que está protagonizando —para o bem e para o mal— as ações na crise. A identificação com o governo estadual e municipal, rara nos últimos tempos, remete a uma valorização da política, o que é importante para o fortalecimento da democracia.

O Brasil é a nona economia do mundo e, ao mesmo tempo, uma das 10 nações mais desiguais do planeta. Habituamo-nos a viver em um país escandalosamente desigual à ponto de banalizar esta injustiça. No sistema em que vivemos, nos acostumamos às diferenças que se evidenciam em sinais exteriores de riqueza como carros, roupas ou adereços de luxo. Mas não é possível é que a desigualdade chegue ao ponto de cobrar com vidas suas vítimas. Isto é inadmissível!

Chegamos ao limite de uma sociedade que necessita urgentemente reconstruir um pacto para a superação deste que é seu maior problema. Impressionante que a grande maioria da elite econômica e política não perceba que, sem resolvermos a desigualdade crônica do país, não conseguiremos avançar minimamente como sociedade, fadados a permanecer em isolamento, hoje pela Covid-19 e depois, como sempre, pela insegurança provocada pela nossa incapacidade de construir uma sociedade menos desigual.

O Brasil é um dos países mais ricos do mundo. Existem recursos. É preciso termos a coragem de inverter as prioridades para reduzir as desigualdades e proporcionar condições de vida digna para a maioria da população. Essa é uma das lições desse momento.

E todos, sem exceção, se beneficiarão com isso!

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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