Não podemos perder a chance de debater as reais causas das epidemias

Vivemos agora a primeira experiência que efetivamente compartilhamos globalmente

A combinação da devastação ambiental que dura décadas, da exclusão social de séculos e de modos de governar ultrapassados, cria o ambiente ideal para uma sucessão de crises humanitárias.

A grave crise do coronavírus que vivemos é mais uma que nos une diante de um inimigo comum e que, quando superada, vai para o esquecimento, por mais vidas que tenha levado consigo. Surgirão, então, os livros saudando a capacidade humana de superação e os últimos avanços da ciência e da tecnologia. E, logo a seguir, retomaremos a rotina diária sem aprender as lições deixadas pela crise, porque o show tem que continuar.

As decisões voltarão a ser regidas pelo mercado, pelo custo-benefício e o retorno financeiro, pelos interesses de curto prazo e de grupos poderosos. As rádios e TVs a cada meia hora noticiarão a subida da bolsa de valores e a queda do dólar, buscando passar mensagens subliminares de que tudo vai bem, sim, senhor. Até a chegada da próxima crise, quando ressurgirão os apelos para que cada um de nós dê as mãos em benefício de todos. Este é o ciclo que se repete há muito tempo.

Quando vamos nos perguntar sobre o que nos leva a estas crises humanitárias?

Quando debateremos, conscientes de nossa fragilidade diante de um vírus, o individualismo a que estamos submetidos?

Quando teremos políticos à altura de enfrentar os temas estruturantes das crises, que pensem no longo prazo e no interesse comum?

Quando teremos Conselhos de Administração de empresas conscientes de que uma sociedade mais equilibrada social e ambientalmente é interesse, sim, destas mesmas empresas?

Quando debateremos a importância do papel do Estado, sem preconceito, como a instituição capaz de enfrentar crises em escala?

Quando falaremos da importância de uma governança global em um momento em que os presidentes só se preocupam com suas fronteiras, mesmo diante de problemas que não respeitam os limites geográficos dos países?

Quando valorizaremos uma cidadania global?

É enorme o impacto emocional na sociedade em momentos de crise como o que vivemos. Se desenvolvermos a capacidade de compreender as causas, muito poderemos avançar. Para isso teríamos que estar dispostos a enfrentar questões que soam como tabus, mas que poderiam conduzir a um outro momento:

  • Pensar na necessidade de mudar as atividades extrativas como a mineração e a exploração de petróleo, por exemplo;
  • Repensar o modelo do agronegócio;
  • Zerar o desmatamento;
  • Priorizar os investimentos na redução das desigualdades;
  • Proteger com rigor a riqueza que é nossa biodiversidade;
  • Investir em saúde e educação pública de qualidade;
  • Defender um sistema tributário progressivo baseado na justa regra de “quem tem mais paga mais”;
  • Rediscutir o papel do sistema financeiro que hoje absorve e concentra a riqueza do país;
  • Obedecer à nossa constituição (que defende em seu artigo terceiro que as leis do país conduzam à redução das desigualdades).

Até os dias de hoje, a globalização foi financeira, permitindo o fluxo de capitais. Foi de mercados, possibilitando o trânsito de produtos. Mas não foi de pessoas, cujo direito de ir e vir é limitado em função de sua origem.

Vivemos agora a primeira experiência que efetivamente compartilhamos globalmente, como pessoas. É o momento de despertarmos para a cidadania global, que desconstrói a ideia de um mundo dividido em fronteiras e chama atenção para os problemas comuns a todos, que não respondem somente a seu país, mas ao planeta. Superar a crise é pensar também em nossa responsabilidade como cidadãos globais, até para pressionar os políticos a terem uma visão mais integrada e ampliada da realidade.

Diante disso tudo, o Brasil tem enormes desafios. Claro que teremos que dar respostas de curto prazo na economia, sobretudo diante da enorme vulnerabilidade da maioria da população brasileira.

Temos condições de superar este momento e, espero, com a menor perda possível de vidas. Mas será um desperdício se não aprendermos as lições que estão muito mais relacionadas às questões estruturantes da sociedade do que em nossa capacidade de enfrentar as crises cíclicas que nos afligem.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.
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