São Paulo é uma cidade atraente, mas desconsidera os anseios e carinho de sua gente

Pesquisa da Rede Nossa São Paulo mostra que 80% dos paulistanos têm orgulho de onde vivem

Às vésperas do 466º aniversário de São Paulo, podemos dizer que a maior e mais rica cidade do país proporciona qualidade de vida para a população? Se tiver que resumir e ir direto ao ponto, a resposta é: não.

Isso porque as pesquisas de percepção da Rede Nossa São Paulo, realizadas em parceria com o Ibope Inteligência, têm mostrado que seus moradores gastam, em média, 2h30 no trânsito todos os dias. Que as oportunidades de trabalho e renda estão concentradas em poucos distritos do centro expandido, exigindo que as pessoas façam longos deslocamentos e percam muito tempo de sua vida no trânsito —o que vale tanto para motoristas quanto para usuários do transporte público. Que 38% das mulheres já sofreram assédio no transporte coletivo, num evidente cerceamento de seu direito de ir e vir. Os indicadores do Mapa da Desigualdade também revelam que nos bairros mais vulneráveis as pessoas têm idade média de morte de 57 anos, 23 anos a menos do que nos bairros ricos.

A pesquisa sobre qualidade de vida que está sendo divulgada hoje apresenta questões que abordam os sentimentos em relação à cidade. Revela, por exemplo, que os paulistanos têm orgulho (80%) de onde vivem. São Paulo é rica, lida com inovação e conhecimento, cultura e arte. E oferece oportunidades, entretenimento e mercado de trabalho.

Há um valor em tudo isso que é incorporado pelas pessoas e se traduz no sentimento de orgulho. Por outro lado, a pesquisa mostra uma insatisfação com a cidade, por sua incapacidade de oferecer melhorias consistentes. Também são apontados problemas como violência, trânsito e desigualdade.

Todos estes temas deveriam ser analisados com muito carinho pelos que desejam se candidatar à Prefeitura e à Câmara Municipal nas eleições de 2020. São expectativas da população.

A confiança nas instituições também é destaque na pesquisa. O Metrô e a Sabesp detêm os melhores números e os piores vão para a Prefeitura (34%), o Ministério Público (33%) e o Judiciário (30%). Notícia ruim para a qualidade da democracia, que necessita de instituições fortes e confiáveis, mas um importante alerta para os políticos e o poder judiciário: é necessário repensar seus métodos.

Os paulistanos também se mostram muito distantes da vida política da cidade. Somente 4% declararam ter participado de alguma atividade na Câmara Municipal. E, talvez não por outro motivo, como resposta a este distanciamento, 63% das pessoas declaram não se lembrar em quem votaram nas últimas eleições.

A participação da sociedade por meio de espaços institucionais de diálogo e escuta é caminho necessário para um modo de governar que dê conta dos desafios socioambientais e aproxime a política da sociedade. E um judiciário que trate a todos com equidade: o sinal de alerta está aceso. Não por acaso é a população mais vulnerável que menos confia, em um recado claro de que o sistema não lhe considera.

Os dados divulgados hoje mostram ainda que melhorou a avaliação da administração municipal (de 15% para 18% de “ótimo” e “bom”). Repousa na Prefeitura, efetivamente, a capacidade de dar escala nas transformações da cidade. Já a avaliação da Câmara Municipal se manteve estável e em um patamar muito baixo (somente 8% de “ótimo” e “bom” e 50% de “ruim” ou “péssimo”).

A pesquisa ainda aponta as características desejáveis de um prefeito: conhecer os problemas da cidade (63%) e visão de futuro (55%), comprovando que a população quer uma liderança preparada. E diz que não se importa com a religião do candidato (8%) e nem se é novo na política (5%), o que não deixa de ser um alento em tempos de polarização política.

Por fim, 64% deixariam a cidade se pudessem. Se a pesquisa mostra o orgulho das pessoas de viver em São Paulo, a intenção de abandono faz com que a cidade não se sinta orgulhosa dela mesma. Há muito o que fazer. Na falta de terapeutas urbanos, cabe aos políticos e as instituições melhorarem a relação com a população, e pesquisas como essa podem ser preciosos guias orientadores.

Em poucas palavras, São Paulo é atraente, mas difícil, pois desdenha do carinho de sua gente ao não lhe proporcionar efetiva melhoria na qualidade de vida. Por isso, gera uma forte reação numa maioria que não quer mais sofrer: 6 em cada 10 pessoas iriam embora, arrumariam suas malas e buscariam outros espaços.

Um enorme potencial perdido à espera de lideranças que aproveitem uma riqueza da sociedade: a predisposição de estar e de pertencer.

E você, deixaria a cidade se pudesse?

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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