Zerar a morte de jovens na cidade deveria ser prioridade dos gestores públicos

Definição dos investimentos e prioridades públicas não obedece a critérios de redução de desigualdades

Um dos personagens entrevistados pelo jornalista Caco Barcellos, do programa “Profissão Repórter” dedicado ao Mapa da Desigualdade de São Paulo 2019, foi o pai do jovem negro de 18 anos baleado pela polícia enquanto trabalhava com sua moto em Cidade Tiradentes, distrito pobre da mais rica cidade do país, São Paulo. A realidade dele e da grande maioria de moradores da região é triste, de chorar! Lá, a idade média de morte é de 57 anos enquanto em Moema, distrito rico, é de 80 anos. São exatos 23 anos de diferença no tempo médio de vida na mesma cidade.

A desigualdade, nesse caso, não tem uma única explicação, ela é cumulativa: é de saúde, de educação, de segurança, de mortalidade infantil, de saneamento, e de tantos outros temas. Mas o principal responsável por esse dado insuportável tem nome: homicídio de jovens, sobretudo negros.

Na mesma Cidade Tiradentes, chama a atenção a gravidez na adolescência. Em 2018, 16,42% dos bebês nascidos vivos eram de mães com até 19 anos. O mesmo indicador, em Moema, foi de apenas 0,35%. Uma diferença de 46 vezes. Neste caso a desigualdade é de educação, assistência social, acesso à cultura, falta de oportunidades para jovens – temas que contribuem para gerar a falta de perspectiva de vida, em um ambiente vulnerável.

Em Cidade Tiradentes não há sequer um museu, uma sala de show ou um cinema. Os empregos são oferecidos na razão de 0,24 para cada dez habitantes, enquanto na Barra Funda são 59,24 por dez habitantes. A concentração de oportunidades em bairro distantes, o tempo gasto no transporte, o custo da passagem são razões que consolidam a desigualdade.

Qual a razão de tamanha desigualdade numa mesma cidade, a mais rica do País? Se existem distritos com um ótimo padrão, é possível, respeitando os desafios locais, gerar qualidade de vida nas regiões mais vulneráveis. Não é necessário buscar conhecimento em outros lugares, no “estrangeiro”, pois ele já está instalado e disponível aqui mesmo.

O problema é que a definição dos investimentos e prioridades públicas não obedece a critérios de redução de desigualdades. Deveria. Uma cidade mais equilibrada é interesse de todos, dos mais ricos aos mais pobres. Não é uma agenda revolucionária, mas reformista. Trata da dignidade para as pessoas, reduz a violência e se quisermos olhar pela ótica da economia, amplia o mercado consumidor. É insano manter esse grau de desigualdade no país e nas cidades, sob risco de instabilidades social e política, como cada vez mais observa-se em outros países. Deveria ser uma agenda comum, sobretudo dos governos e das empresas, já que é defendida pela grande maioria da sociedade civil há muito tempo.

Os dados do Mapa da Desigualdade, iniciativa da Rede Nossa São Paulo, conduzem para uma outra questão importante, o orçamento regionalizado. Se soubéssemos qual o orçamento per capita em Moema e em Cidade Tiradentes, isto é, quanto tem sido investido em cada distrito, teríamos condições de começar a desenhar uma nova realidade. Pois, pasmem: com toda a tecnologia disponível nos dias de hoje esse dado não existe. A partir dele, a Prefeitura poderia ligar o Mapa da Desigualdade ao orçamento e definir investimentos desiguais para os mais desiguais, como caminho para a redução das desigualdades.

No século 21, obter o orçamento regional, para caminhar na direção de uma cidade socialmente mais equilibrada e justa, não é um problema técnico, é político.

Zerar a morte de jovens e, com isso, a diferença entre a idade média de morte entre distritos, também não é uma decisão técnica, é política. É o mínimo que um prefeito, seja de que partido for, tem que assumir como responsabilidade e como meta. Independentemente das discussões de subordinação das polícias, um prefeito tem que assumir a gestão de temas críticos do município, definindo prioridades e diretrizes, articulando, dialogando, criando parcerias.

Essas decisões políticas devem ser encaradas com a prioridade que merecem nas eleições de 2020. Caberá a cada um de nós avaliar quem tem um programa que enfrentará os principais desafios da cidade: zerar a morte de jovens é, seguramente, um dos principais.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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