Será nas cidades que vamos travar a batalha do desenvolvimento sustentável

SP sedia nesta semana a conferência Catalisando Futuros Urbanos Sustentáveis, com prefeitos de vários países

Muitas vezes na vida vale ousar. Tive muito mais respostas positivas do que negativas quando ousei, embora eu me recorde mais das negativas do que das afirmativas. Coisas da culpa que me acompanha por uma vida e da qual até hoje não me desvencilhei, mas que teimosamente não desisto de enfrentar.

Em novembro de 2017, numa conferência da Plataforma Global para Cidades Sustentáveis (GPSC) em Nova Delhi, na Índia, propusemos que o evento de 2019 ocorresse no Brasil. O encontro é organizado a cada dois anos em uma cidade do mundo: a primeira foi em Cingapura e a segunda, em Delhi. Naquele momento imaginamos que como 2019 seria um ano livre de eleições, a temperatura política no Brasil estaria mais amena. Ledo engano! Percebo agora o quanto carrego de ingenuidade.

O tempo passou e exatamente hoje (17), depois de muitas negociações e trabalho, está sendo inaugurada em São Paulo a conferência Catalisando Futuros Urbanos Sustentáveis, que ocorre até sexta-feira no parque Ibirapuera, reunindo prefeitos, gestores municipais e especialistas em cidades de todo o Brasil e do exterior. Fruto de uma parceria entre a Plataforma Global para Cidades Sustentáveis, o Programa Cidades Sustentáveis e a Prefeitura de São Paulo, o evento reúne o 3º Encontro Global da Plataforma Global para Cidades Sustentáveis​​ e a 2ª Conferência Internacional sobre Cidades Sustentáveis.

É um espaço de troca de experiências e aprendizado raro, por sua qualidade e escala. Estarão presentes durante a semana 201 cidades de 40 países, sendo 64 do exterior e 137 do Brasil.

As cidades são responsáveis por 80% da geração de riqueza e 75% das emissões de gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global. Hoje, a maioria das pessoas no mundo vive em cidades —número que chega a 85% no Brasil. Se, por um lado, as cidades geram impacto social e ambiental, são também responsáveis pelas oportunidades de trabalho e renda, de conhecimento, de cultura e arte, de inovação e tecnologia e onde a diversidade das relações inspira transformações. Como fazer prevalecer o impacto positivo é o desafio que temos.

Uma das atividades da conferência é a entrega do Prêmio Cidades Sustentáveis para as cidades que se destacaram em reduzir as desigualdades, um dos maiores desafios de nosso tempo. Como as cidades enfrentam a desigualdade e que ações adotaram que podem servir de exemplo para tantas outras? Para eleger as cidades vencedoras as desigualdades foram analisadas sob os seguintes temas: acesso a serviços, desigualdade econômica e acessibilidade.

Será realizada também uma rodada de prefeitos que abordarão temas sociais e ambientais, com a presença de prefeitos de cidades da Europa, como Penelope Komites (vice-prefeita de Paris), da Ásia (Shen Min, de Ningbo, China), da África (Serigne Dion de Sandiara, Senegal) e da América (Jonas Donizete, de Campinas, que é presidente da Frente Nacional de Prefeitos), entre outros.

Um dos desafios que temos para dar escala às mudanças é o de estimular e facilitar a entrada de cidades na agenda do desenvolvimento sustentável. Para isso será lançada a nova plataforma do Programa Cidades Sustentáveis (com módulos de planejamento integrado, indicadores, boas práticas, ensino a distância etc) e o Observatório de Inovação, ambos componentes do projeto Citinova, que estimula uma gestão pública integrada.

Nos dois dias do encontro haverá painéis de diálogo com gestores públicos, profissionais da academia e do terceiro setor que abordarão temas do momento: o papel da gestão pública na geração de oportunidades de trabalho e renda, planejamento urbano e equidade de gênero e raça, participação social como solução para os desafios da gestão pública, inclusão e moradia acessível, biodiversidade urbana e desenvolvimento orientado ao transporte sustentável, entre outros.

A importância das cidades evidenciada na frase título do artigo, cunhada por Ban Ki-moon, ex-secretário geral da ONU, justifica-se por sua densidade demográfica e pujança econômica. Portanto, tomadas de decisão e ações nas cidades sempre terão grande impacto no agravamento ou no enfrentamento dos desafios atuais.

A Conferência foi pensada para jogar a favor, estimulando as cidades a promover mais qualidade de vida para as pessoas e menos impacto ao planeta. É possível, mas depende de uma nova visão dos gestores públicos sobre a relação com a natureza e a priorização de investimentos, sobretudo para a população mais vulnerável, visando a construção de uma cidade mais justa e menos desigual.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.
Texto publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.
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