A Amazônia queimando em mim

Ainda há esperança em gestos solidários

A insônia bateu às 4h30. Eu queimava por dentro, embora lá fora a temperatura fosse de 12ºC. De sopetão, me livrei das cobertas. Ainda não havia percebido que eu tinha a Amazônia em mim. Com sono, apalpei a cabeceira em busca de um livro que me ajudasse a fugir dos pensamentos sobre as notícias do dia a dia, que tanto têm me atormentado.

Eu procurava o livro, como a boia salva-vidas daquela noite, na esperança de retomar o sono perdido. Era a busca consciente pela alienação por algumas horas. Se temos vivido um pesadelo a cada dia, tentava evitar o pesadelo noturno.

O problema é que o livro, recomendado por um querido amigo e escrito há mais de cem anos, falava de um “Processo” que pode ter múltiplas interpretações, da opressão do Estado, da sociedade ou mesmo um sentimento de culpa inconsciente, que, por mais distantes que estivessem, remetiam ao presente. Os labirintos sem porta de saída de Kafka tinham impressionante semelhança com nosso momento atual. Não me restou alternativa: abandonei o livro, por mais atual que fosse, na renovada busca pelo sono.

Na manhã daquele dia recebi um telefonema de Victor, um amigo espanhol que vive em Madrid e com quem não falava havia mais de ano. Queria conversar sobre o que acontece no Brasil e saber como os espanhóis poderiam contribuir para a preservação da Amazônia, estava assustado com as notícias que chegam por lá. Desafios complexos como este dependem da atuação integrada de diferentes setores: sociedade civil, empresas, cidadãos e governos.

Foi então que lembrei que o Instituto Ethos, que estimula a gestão sustentável das empresas, desenvolveu um projeto chamado “Conexões Sustentáveis: São Paulo- Amazônia”.

A ideia era reduzir o impacto ambiental que o consumo no estado rico do Sudeste produz na Amazônia, estimulando empresas —no caso, grandes redes de supermercados— a assumirem o compromisso de não comprar carne oriunda de áreas desmatadas ou ilegais.

A origem dos produtos era identificada nas embalagens e estimulava as pessoas a terem consciência do impacto ambiental da sua decisão de compra. Além da carne, o projeto lidou com a soja e a madeira. Foi um sucesso. A maioria das empresas podem e devem pensar na sua relação com a Amazônia e avançar em ações. Não há dúvida de que isso a valoriza tanto interna quanto externamente.

Outro importante Instituto que lida com o tema é o Akatu, que estimula o consumo consciente e a redução do impacto de hábitos e decisões de consumo de cada um de nós. São inúmeras as maneiras pelas quais podemos contribuir: desde o uso da água e energia, passando pelo consumo de produtos compactos e concentrados, os seus ciclos de vida e até nas decisões de mobilidade; caminhada? Transporte coletivo? Combustível fóssil ou etanol?

A Amazônia é chave para o regime de chuvas no Sudeste e as inundações, secas e o abastecimento de água nas cidades têm relação com o desmatamento das florestas. Há evidência do aumento desses e de outros eventos extremos (ilhas de calor, tufões e ciclones) que crescem exponencialmente a cada década.

Segundo o Institute for Public Policy Research, desde 1950 o número de enchentes ao redor do mundo aumentou 15 vezes, eventos de temperaturas extremas 20 vezes, e os incêndios se tornaram sete vezes mais frequentes. Desconsiderar estes dados em momentos como esse soa como insanidade.

Os estados e as cidades podem desenvolver políticas regionais e locais que reduzam os impactos e sinalizem sua preocupação com a Amazônia. A redução de emissões no transporte coletivo e individual, a universalização do saneamento básico, a produção de energia limpa nos prédios e residências, o tratamento de resíduos e a reciclagem de materiais, a proteção dos mananciais e a redução do desperdício de água e o aumento e conservação de áreas verdes são medidas que têm enorme relação com o ambiente, com a qualidade de vida das pessoas e com a Amazônia.

Mesmo sabendo que as mudanças em escala dependem de políticas públicas, a esperança —a mesma que aparece nas cenas finais do filme “Bacurau” com a reação coletiva das pessoas— sempre ronda os que acreditam em transformações na direção de um país mais justo, sustentável e menos desigual.

Victor ficou de verificar a melhor maneira de contribuir, mas a beleza do gesto solidário e desprendido daquele amigo espanhol foi a marca que ficou daquele dia, que tinha começado com um pesadelo.

Há esperança no ar!

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

*Conteúdo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.

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