É nas cidades que moram as grandes transformações da sociedade

Nesses espaços se evidenciam as feridas e as possíveis soluções para o desenvolvimento sustentável

Há mais de 10 mil anos vivemos nas cidades de todo o planeta. Desde então, acumulamos problemas que vêm se intensificando ao longo dos séculos, principalmente nas áreas de saúde, educação, habitação, mobilidade e segurança. A desigualdade social, econômica e cultural é a marca das grandes cidades, salvo raras e pontuais exceções.

No decorrer dos tempos, houve um adensamento das cidades, sobretudo no último século. Hoje, somos 55% de pessoas no mundo vivendo em ambientes urbanos —no Brasil, esse índice chega a 85%. Nos últimos 50 anos, as cidades ganharam 125 milhões de habitantes, o equivalente a duas vezes a população da França.

Entretanto, essa migração em massa não foi acompanhada de um processo de planejamento sistêmico que visasse à qualidade de vida para as pessoas. Com a força e a influência do poder econômico, as cidades têm sido encaradas como espaços de negócios a explorar antes de se tornarem ambientes de bem-estar e vida digna de seus habitantes. A expansão desordenada tem sido a marca desses tempos.

Se é nas cidades que se evidenciam as feridas de um modelo de desenvolvimento predador, é nelas também que se concentram as condições que podem garantir velocidade e escala para as soluções. Ban Ki-Moon, ex-secretário geral da ONU, declarou que “é nas cidades onde vamos ganhar ou perder a luta pelo desenvolvimento sustentável”.

Essa realidade traz aos governos locais o protagonismo no enfrentamento às desigualdades. Não há melhor lugar para exercitar essa agenda do que os centros urbanos, justamente por lidarem com tantas pessoas em um espaço físico tão concentrado.

No Brasil, as cidades são responsáveis pela geração de 80% da riqueza, 75% das emissões de gases de efeito estufa e é onde a pobreza mostra sua cara mais aterradora.

Está dado o desafio. A mudança para melhor dependerá de nossa capacidade de integrar o aprimoramento da democracia, a redução das desigualdades e o combate à mudança do clima, temas-chave para uma cidade contemporânea.

A transformação é possível porque há conhecimento e tecnologia. O problema, entretanto, é mais político do que técnico, é mais analógico do que digital: dependemos de decisões tomadas a partir de relações políticas e sociais.

Hoje, mais do que nunca, as cidades são o espaço de avanço e defesa de importantes temas e conquistas da sociedade, com grande importância política. Elas podem e devem exercer sua autonomia, conferida na Constituição.

Em outros países, cidades vêm assumindo agendas desprezadas pelos governos federais. Los Angeles (EUA), por exemplo, confirmou sua adesão ao Acordo de Paris independentemente da postura contrária do governo federal. A cidade de São Paulo tomou a mesma decisão. O retrocesso representaria uma péssima sinalização para os agentes econômicos, sociais e ambientais.

As cidades devem ser pensadas no longo prazo e, neste sentido, a Agenda 2030 da ONU cria referências para um padrão de desenvolvimento sustentável. No Brasil, há um enorme desafio no curto prazo: as eleições de 2020. Nelas estará em jogo, além de uma visão da cidade que queremos, a de um país que desejamos. A campanha eleitoral do ano que vem, inevitavelmente, vai incorporar o debate nacional, aumentando ainda mais sua importância.

É nas cidades que moram o conhecimento, as oportunidades, a criatividade, a inovação, a diversidade e a solidariedade. Por isso, elas podem ser vistas como redutos de esperança e agentes de transformação da sociedade.

Neste espaço, hoje inaugurado nesta Folha, debateremos as cidades, sua importância e, sobretudo, seu impacto na vida de cada um de nós. Conto com você nessa viagem.

Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.
Texto publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo.
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