Gasto de Doria antienchente é só 1/4 de verba para asfalto

Gestão tucana fez cortes em drenagem em 2017; neste ano, cidade sofre com enchentes

Artur Rodrigues e Dhiego Maia - Folha de S. Paulo

O prefeito João Doria (PSDB) deixou de utilizar, desde que ele assumiu, a maior parte do dinheiro previsto para obras e manutenção antienchente em São Paulo.

E neste começo de 2018 a tendência se repete: em quase três meses, os gastos do tucano com programas de drenagem ficaram bem abaixo inclusive do que com asfaltamento de rua e publicidade.

No ano passado, a administração Doria gastou apenas 33% do orçado em ação contra enchentes --R$ 275 milhões de R$ 825 milhões.

Neste ano, as despesas até esta semana não chegavam a 2% do valor anual previsto --só R$ 10 milhões, de um montante de R$ 584 milhões.

Na terça-feira (20), a capital paulista enfrentou sérios transtornos com alagamentos e registrou três mortes em consequência da chuva. As vítimas foram uma criança, uma idosa e um segurança.

Doria deve deixar a prefeitura até o começo de abril para ser candidato ao governo de São Paulo pelo PSDB.

O programa Asfalto Novo é aposta do tucano para impulsioná-lo nas eleições.

Só em 2018, Doria já gastou R$ 40 milhões com recapeamento e pavimentação de vias --quatro vezes a quantia destinada para drenagem.

No total, foram anunciados R$ 550 milhões para recuperação de 400 km de ruas e avenidas ao longo do ano.

Como já havia mostrado a Folha, essa quantia prevista para asfaltamento supera inclusive a expectativa de investimentos (e não custeio, como salários) nas áreas de saúde (R$ 545 milhões) ou educação (R$ 168 milhões) em 2018

A velocidade dos gastos de Doria com publicidade, parte dela referente ao Asfalto Novo, também tem superado a das ações de combate a enchentes --já foram gastos em menos de três meses R$ 24 milhões, do valor de R$ 105 milhões previsto no ano.

Com baixo investimento em 2017, as obras estruturais acabaram se alongando.

O plano do prefeito para as chuvas deste ano, anunciado no ano passado, previa que somente duas de seis importantes obras beneficiariam a cidade ainda no verão.

ENCHENTES

A tempestade que atingiu a capital paulista entre a tarde e a noite desta terça-feira (20) ainda provocava reflexos na manhã desta quarta-feira (21). Três pessoas morreram por consequências da chuva —​uma criança, uma idosa e um segurança. 

O aguaceiro inundou ao menos 52 pontos da capital paulista e afetou 45 semáforos. Por volta das 11h desta quarta, 36 equipamentos seguiam apagados e outros sete com amarelo piscante, segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Ao todo, a capital paulista possui 6.400 semáforos.

Os bombeiros informaram que atenderam 95 ocorrências relacionadas a árvores. Foram 82 na terça e 13 até as 9h desta quarta. De acordo com o capitão Marcos Palumbo, os atendimentos incluem quedas de árvores, galhos e estruturas que não caíram por completo ou ainda que estão em perigo de despencar.

A corporação também foi acionada em outras 105 chamadas para atender casos de inundação.

OUTRO LADO

A gestão João Doria (PSDB) reclama da falta de repasses federais para obras de drenagem no último ano e nega lentidão no ritmo do gasto com a área em 2018.

A prefeitura afirma que os gastos em 2017 também foram afetados por um contingenciamento de R$ 7,5 bilhões do orçamento, devido a "déficit verificado pela receita superestimada pela gestão anterior [de Fernando Haddad, do PT]".

Segundo a administração, os investimentos também foram comprimidos pela arrecadação ainda limitada pela recessão do ano passado.

Sobre este ano, a prefeitura diz que não há baixa execução das despesas com drenagem. "Ocorre que a liquidação dos valores empenhados obedece um rito, que inclui a necessidade primeiro da contratação da obra e reserva dos recursos, empenho, medição da obra realizada, até a liberação dos pagamentos para liquidação."

Segundo o comunicado, no primeiro trimestre "foram empenhados R$ 319 milhões em obras a serem realizadas este ano (dos quais apenas R$ 10,9 milhões já chegaram na fase da liquidação)".

A respeito das enchentes desta terça, a gestão afirmou ter atendido as vítimas. Sem especificar se os atingidos estão desabrigados ou tiveram que deixar suas casas temporariamente, informou apenas que os atendimentos estão relacionados a ocorrências de desabamentos.

Também não informou quantas pessoas estão nos albergues públicos. 

Em nota, a prefeitura afirmou que disponibilizou 524 colchões e cobertores, 199 cestas básicas e 185 kits de higiene e limpeza para famílias que não aceitaram acolhimento e escolheram ficar na casa de parentes e amigos. A gestão também lamentou a morte das vítimas relacionadas às chuvas na cidade.

Matéria publicada na Folha de S. Paulo