Atrasado, Alckmin entrega novas estações em linha 'vazia' do metrô

FABRÍCIO LOBEL - FOLHA DE S. PAULO

Com quase três anos de atraso, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) entrega nesta quarta (6) três novas estações da linha 5-lilás do metrô de São Paulo. As paradas Alto da Boa Vista, Borba Gato e Brooklin, todas na zona sul, adicionam 2,8 km à rede atual de 68,5 km na cidade.

Anos atrás, o tucano chegou a prometer a entrega de toda essa linha até 2014.

As novas estações representam o prolongamento do trecho, que tem como origem a estação Capão Redondo, uma das áreas mais carentes da zona sul da cidade.

O objetivo do governo do Estado é que até o fim do ano esta linha siga no sentido nordeste e se conecte às linhas azul (estação Santa Cruz) e verde (Chácara Klabin). Dessa forma, a linha conseguirá aumentar o fluxo de passageiros, que atualmente opera abaixo do esperado e fora da rede metroviária (atualmente, o trecho faz contato apenas com a linha 9 da CPTM).
 

Quando o ramal estiver completo, com 20 km, a estimativa do governo é que ele transporte 800 mil passageiros por dia. Em 2016, a linha transportou em média 260 mil –dos 3,7 milhões de passageiros conduzidos diariamente pelo Metrô em dias úteis (sem contabilizar passageiros da linha privada 4-amarela).

"[Com a conexão com as demais linhas] quem vem da região do Capão Redondo terá o seu caminho facilitado até o centro e a avenida Paulista. Muitos poderão deixar o corredor de ônibus", diz o secretário de Transportes Metropolitanos, Clodoaldo Pelissioni.

"E passaremos a atender uma região grande de classe média alta, mas muito adensada [Moema, Brooklin, Campo Belo]. Essas pessoas agora poderão usar o Metrô."

O secretario diz ainda que o tempo de espera por um trem na linha também diminuirá. Atualmente, com exceção do monotrilho da linha 15-prata, a linha 5-lilás tem a espera mais longa. Fora da hora de pico, a média é de seis minutos. "O objetivo é um intervalo entre 2 e 3 minutos."

Para a estudante Stefany de Andrade, 18, a inauguração total do ramal reduzirá as três horas de viagem em ônibus. Moradora do Campo Limpo, ela usa cinco ônibus todos os dias para ir até a faculdade, na Vila Mariana, e até o trabalho, em Santo Amaro. "Quando inaugurar tudo, até a linha 2, aí sim vai ser ótimo."

Nesta quarta, começa a operação assistida, de segunda a sábado, das 10h às 15h, e sem a cobrança de passagem. A operação comercial deve estar plena em 60 a 90 dias.

A construção da linha 5-lilás foi marcada por seguidos erros de gestão e de planejamento dos governos estaduais e do próprio Metrô.

As obras, numa primeira etapa, foram iniciadas em 1998, ainda no governo do tucano Mário Covas. A inauguração das primeiras seis estações, num percurso de 9,4 km, ocorreu em 2002. Mas a operação comercial só se tornou plena (todos os dias e em horário estendido) em 2008.

Nos primeiros anos, a linha sofreu com a baixa adesão, já que ficava distante de outras estações do Metrô. A ociosidade chegou a custar R$ 2,8 milhões ao mês à companhia (diferença entre a arrecadação e a manutenção do trecho).

Em 2010, mais um tropeço no histórico da linha: uma reportagem da Folha mostrou que as empresas que venceriam os lotes para a segunda etapa do ramal (entre as estações Largo Treze e Chácara Klabin) já eram conhecidas seis meses antes da licitação.

A reportagem causou a suspensão da licitação e a abertura de investigações pelo Ministério Público. O caso segue na Justiça. Em 2011, Alckmin decidiu avançar as obras com os contratos suspeitos, contrariando recomendação da Promotoria. Desde então, entregou apenas uma estação.

ATRASO

No momento em que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e os executivos do Metrô estiverem na zona sul na manhã desta quarta (6) na cerimônia de inauguração de três estações da linha 5-lilás, do outro lado da cidade, na zona leste, Fabrício Gonçalves, 28, verá um trem quase vazio do monotrilho passar em frente à sua loja.

A mesma cena se repete desde 2014. A composição percorre o trecho de apenas 2,6 km entre a Vila Prudente e o Oratório, as duas únicas estações inauguradas da linha 15-prata. "A obra vai ser ótima, mas só quando inaugurar toda ela, né?", disse.

O monotrilho é apenas uma das sete obras de expansão do Metrô em curso –e todas estão com metas atrasadas. Além disso, todas essas linhas são ou deverão ter a operação privatizada por Alckmin.

Aberto há três anos, o monotrilho da zona leste operou por um ano apenas em fase de testes. A operação comercial com horário estendido, como funcionam as outras estações da rede metroviária, só veio em outubro do ano passado.

Em 2016, a linha transportou, em média, 14 mil pessoas nos dias úteis. Para se ter uma ideia, o volume de passageiros por dia no Metrô é de 3,7 milhões.

Entre outras falhas, o avanço do monotrilho foi atrapalhado por erros de projeto. Galerias subterrâneas de água, por exemplo, tiveram que ser deslocadas para que o solo suportasse as vigas que sustentam as estações.

O imprevisto atrasou e encareceu a obra. As outras oito estações da linha deverão ser entregues até o ano que vem, quando o monotrilho, enfim, chegará a São Mateus, na zona leste.

OUTRAS LINHAS

Os outros dois projetos de monotrilho da cidade também estão emperrados. A linha 17-ouro (entre Congonhas e o Morumbi) chegou a ter o canteiro de obras vazio.

O governo do Estado entrou em litígio para a retomada das obras, mas rompeu o contrato com o consórcio. Novas empreiteiras agora tocam a linha, que deverá ficar pronta em 2019.

Já a linha 18-bronze (entre a estação Tamanduateí e o ABC) aguarda que o governo do Estado encontre financiamento internacional. O prazo de entrega é indefinido.

Uma das principais da cidade, a linha 2-verde, deveria seguir da Vila Prudente até a rodovia Dutra, em obra prometida até 2020. Mas sem recurso federal, o empreendimento está suspenso.

Outra obra atrasada é o avanço da linha 4-amarela, que deveria estar pronta em 2014. O governo do Estado promete agora a abertura da estação Higienópolis-Mackenzie em dezembro deste ano. Outras duas serão abertas em 2018, e a estação Vila Sônia, na zona oeste, deverá ficar pronta só em 2019.

Já a linha 6-laranja (entre Brasilândia e a estação São Joaquim), está com obras suspensas há um ano, já que empreiteiras do consórcio responsável pela construção, envolvidas na Lava Jato, ainda não conseguiram financiamento para o projeto. A expectativa do governo é que neste mês o consórcio apresente uma solução para o impasse. Caso contrário, nova licitação deverá ter de ser feita, atrasando ainda mais a linha.

O governo do Estado argumenta que a crise econômica, especialmente no setor de construção civil, inviabilizou o cumprimento de metas.

Matéria publicada na Folha de S. Paulo.