Acidentes com mortes nas marginais contrariam discurso da gestão Doria

FABRÍCIO LOBEL - FOLHA DE S. PAULO

Uma adolescente no banco traseiro do carro da mãe. Uma enfermeira a caminho do hospital. Um agente de trânsito da CET após um dia de trabalho. Um motociclista a bordo de sua Harley Davidson e formado na faculdade uma semana antes.

Marcela, 14, Daiane, 33, Ubirajara, 50, e Maurício, 39, são apenas 4 dos 27 mortos neste ano em acidentes nas marginais Tietê e Pinheiros. 

As vias são as principais da cidade de São Paulo e, no final de janeiro, tiveram os seus limites de velocidade ampliados pelo prefeito João Doria (PSDB), uma das promessas eleitorais do tucano.

Os limites máximos permitidos nas três pistas que formam as avenidas passaram de 50 km/h, 60 km/h e 70 km/h para, respectivamente, 60 km/h, 70 km/h e 90 km/h. 

Desde então, a gestão Doria tem repetido que : 1) a velocidade não teve influência em nenhuma dessas mortes; 2) as vítimas são basicamente motociclistas, numa associação à imprudência. A prefeitura, porém, não apresenta estudo ou detalhamento que sustente esse primeiro ponto. A Folha fez seguidos pedidos à CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), mas nunca obteve uma resposta.

Além disso, parte dos acidentes com mortes nem passou por investigação policial, o que poderia apontar possíveis causas ou responsáveis. Ao menos sete ocorrências não têm suspeitos identificados. Em pelo menos quatro, a perícia local nem foi feita (casos em que a vítima chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital).

Na prática, hoje, o aumento dos limites de velocidade nas marginais é uma política pública sem monitoramento.

INVESTIGAÇÃO

Ao longo dos últimos três meses, a Folha analisou os registros policiais desses acidentes, submeteu as descrições oficiais a engenheiros especialistas em segurança viária e conversou com familiares das vítimas.

O resultado dessa investigação jornalística é um cenário diferente do que vem sendo divulgado pela gestão tucana. O principal ponto é que as informações disponíveis sobre os acidentes são insuficientes para descartar a influência da velocidade como um dos fatores contribuintes, como repete a prefeitura.

O número de mortes nas marginais até outubro deste ano indica o final de uma tendência de queda verificada em anos anteriores.

Em 2014, a CET registrou 68 mortes nas marginais. No ano seguinte, quando os limites de velocidade foram reduzidos a partir de julho, o número caiu a 46. No ano passado, foram 26, e, em 2017, até outubro, a Folha já contabilizou 27.

Confira aqui a reportagem completa publicada na Folha de S. Paulo.

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